Eleições para o
Parlamento Europeu mostram que é preciso conciliar cooperação
internacional com respeito pelas individualidades nacionais; o problema é
como, escreve Vilma Gryzinski:
Um belo choque
institucional é bom para chacoalhar estruturas enferrujadas ou viciadas.
O resultado das eleições em geral mais tediosas do planeta teve esse
efeito, já amplamente antecipado pelos fenômenos políticos que as
precederam.
“Nacionalismo”,
“populismo”, “extrema direita” e, claro, o sempre abusado “fascismo”,
têm sido algumas das denominações usadas para descrever as várias
manifestações desse movimento em direção ao campo habitado pela direita,
de defesa dos valores e da supremacia nacional sobre as instituições
supranacionais.
Geralmente os rótulos
são cravados com desprezo, raiva, arrogância ou certeza inabalável de
que o dragão da maldade está do lado dos rotulados e a superioridade
moral, dos rotuladores.
Nigel Farage na
Grã-Bretanha, Matteo Salvini na Itália, Marine Le Pen na França e outros
dos grandes vencedores da eleição europeia têm grandes diferenças.
Inclusive porque o Brexit assustou de tal forma os demais que a ruptura
com a União Europeia, tema único e exclusivo do novo partido de Farage,
deixou de fazer parte do discurso dos demais nacionalistas ou
soberanistas.
No mundo ocidental, a
rejeição aos novos emergentes era um fenômeno especificamente da
Europa, onde o nacionalismo exacerbado, em condições históricas
específicas, levou ao fascismo e ao nazismo com seus horrores
inesgotáveis.
Como o comunismo era,
por definição, internacionalista, direita e esquerda acabaram
definidas, também, por esse antagonismo. Atualmente, a palavra foi
substituída por”globalismo” para os adversários das instituições
supranacionais que pretendem tomar o lugar dos principais fundamentos do
estado-nação.
No Brasil, no México
ou nos Estados Unidos, até recentemente era impensável considerar
“nacionalismo” um defeito, excetuando-se no campo da esquerda pura e
dura.
Quando Jean-Claude
Juncker, o presidente da Comissão Europeia, diz que odeia “os cretinos
nacionalistas que são apaixonados por seus países e não gostam dos
outros” certamente não está se referindo à Jamaica ou ao Uruguai. Nem ao
Egito, nem ao Casaquistão.
Tem em mente a Europa
do século 20 e os Estados Unidos de Donald Trump, com sua capacidade de
acionar o gatilho do desequilíbrio político-emocional em metade da
humanidade.
Juncker – ou
Druncker, segundo os inimiguinhos, por causa por causa das diversas
ocasiões de língua enrolada e passo trôpego, que atribui a crises de
ciática – é linguarudo e provocador, ainda mais com o fim de seu último
mandato chegando no fim do ano.
Mais equilibrado, o
historiador israelense Yuval Noah Harari fez no El País uma defesa
igualmente apaixonada, até exagerada, da União Europeia.
“A União Europeia
trouxe paz à Europa e estabilidade ao mundo inteiro”, escreveu. Em parte
tem razão: a Europa estava em paz e sem nenhum conflito à vista quando
começou a união tarifária que conduziu a todo o resto, mas a
contribuição de fundos aparentemente inesgotáveis ajudou na
democratização de Espanha e Portugal.
O mesmo cofre ajudou a
tornar os ex-satélites soviéticos países viáveis. E a exigência de
racionalidade econômica foi, mais ou menos, generalizada.
“Mas agora está em
crise. Os europeus, portanto, enfrentam escolhas morais que vão formatar
o futuro da Europa e da humanidade em seu conjunto.”
“Quem sou eu para
recomendar um partido ou um candidato concreto”, acrescentou, usando as
palavras de quem obviamente vai fazer o oposto “Mas posso dizer que a
prosperidade e a sobrevivência da humanidade no século XXI dependem de
que haja uma verdadeira cooperação regional e mundial.”
“Não existe
contradição entre globalismo e nacionalismo. Porque nacionalismo não
consiste em odiar os estrangeiros. O nacionalismo consiste em cuidar de
nossos compatriotas. E no século XXI, para proteger a prosperidade e a
segurança de nossos compatriotas, devemos cooperar com os estrangeiros.
Por conseguinte, um bom nacionalista deveria ser também um globalista.”
Se alguém gritar
falácia, não vai estar mentindo. Nenhum “nacionalista”, com as aspas
significando o desprezo habitual, pretende isolar os respectivos países,
cortar a cooperação comercial ou acabar com os sistemas coletivos de
segurança.
Na vida real, as
pessoas tão bondosamente ensinadas pelo professor Harari , autor do
modestamente intitulado Uma Breve História da Humanidade, a abandonar
seus maus instintos enfrentam realidades um pouco diferentes.
Algumas delas: os
desarranjos socais e culturais provocados pela migração em massa; o
espanto e ódio diante de filhos e netos de imigrantes muçulmanos que se
dedicam a explodir, esfaquear, fuzilar ou decapitar habitantes dos
países que lhes abriram as portas e a expansão constante de uma
superburocracia europeia que determina desde o formato das bananas até o
tamanho das penas dos criminosos.
A briga é boa porque
existem argumentos consideráveis em ambos os campos, pelo menos para
quem quer sair da esfera da fabulação conspiracionista dos
antiglobalistas e das certeza morais do lado onde a hegemonia cultural
reina absoluta. Sem contar os oportunistas de ambas as partes.
O choque de realidade
é necessário para, idealmente, conduzir a um consenso mais amplo sobre o
papel dos países, das identidades nacionais, das necessárias
instituições coletivas e da própria essência da União Europeia.
Por enquanto, estamos
na fase do choque. Quem poderia imaginar que um partido formado há
menos de dois meses ficaria num distante primeiro lugar nas eleições
para o Parlamento Europeu com base unicamente na proposta, tão sabotada,
do Brexit?
Quem poderia prever
que Matteo Salvini deixaria os limites estritos da Liga Norte
(originalmente baseada na separação entre o norte e o sul da Itália)
para se transformar no “homem mais perigoso da Europa”, um título dado
pelos inimigos que evidentemente só o honra?
Que Steve Bannon, o
ex-guru trumpiano caído em desgraça, alugaria um antigo mosteiro na
Itália para de lá promover o Movimento, o nome que deu à nova direita
nacionalista?
Que a direita direita
ganharia na Grécia, depois de ser arrasada pelo naufrágio da crise,
ou a direita brava arrasaria na parte da Bélgica que fala holandês?
Mais novidades. Um
bonitão com o nome muito francês de Thierry Baudet entrou na parada ha
Holanda, ameaçando pela direita Geert Wilders, o único da leva atual
decididamente contra o regime de Vladimir Putin.
Baudet, de 36 anos, é um elitista assumido que costuma discursar contra a música atonal e a arquitetura moderna.
Mesmo antes dos
resultados, o choque já teve efeitos positivos: a participação na
eleição europeia, normalmente anêmica, aumentou em 10% na França
preparada para uma vitória de Marine Le Pen e 15% na Espanha que fez
dobradinha com eleições regionais.
A direita
nacionalista está longe de ser majoritária no Parlamento Europeu, mas já
mostrou que á fácil a vida de quem faz carreira só na base de desprezar
seus representantes como burros, ignorantes, perigosos etc etc etc.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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