Recordando a pergunta de Churchill em 1938: não temos nós uma ideologia -
essa expressão horrível - própria na liberdade, numa Constituição
liberal, no governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na
Petição de Direitos? Artigo do professor João Carlos Espada, via Observador:
Chega amanhã a Lisboa o Presidente (vitalício) da República Popular
da China, Xi Jinping, que é também o líder do partido comunista chinês e
da comissão que dirige as forças armadas daquele país. E é no mínimo
surpreendente o silêncio que entre nós se faz sentir acerca do intenso
debate que vem ocorrendo no Ocidente sobre a ameaça crescente da China
comunista na ordem internacional.
Já aqui dei conta,
em Maio passado, deste nosso intrigante silêncio sobre as preocupações
ocidentais face à estratégia global chinesa. Lamento ter de voltar a
assinalar hoje a permanência desse silêncio desagradável.
Não é possível resumir aqui o intenso debate que está a ocorrer no
Ocidente sobre as ameaças da estratégia global chinesa. Mas algumas
breves referências são possíveis. Ainda na passada sexta-feira, 30 de
Novembro, Ivan Krastev escrevia em The New York Times que, após 3 meses em Washington, uma das principais conclusões que retirara dizia respeito à China:
“Republicanos e Democratas discordam hoje em quase tudo, mas uma área
em que parece existir efectiva convergência bi-partidária é sobre a
necessidade de mudar a política americana face à China. (…) O
autoritarismo chinês é hoje um adversário das democracias liberais muito
mais perigoso do que o comunismo soviético alguma vez foi”.
Nem de propósito, no dia anterior, em The Washington Post, Carl
Gershman, presidente do National Endowment for Democracy criado em 1982
pelo Presidente Reagan, denunciava
o autoritarismo expansionista chinês e apelava a um entendimento
bi-partidário para lhe fazer frente. Nesse mesmo dia, The Wall Street
Journal publicava
um apelo de 32 académicos americanos para maiores restrições à
concessão de vistos a jornalistas e académico chineses — como resposta
ao controlo chinês sobre a entrada de académicos americanos.
Dois dias depois, 1 de Dezembro, a capa da revista britânica The Economist
era mais uma vez sobre a China — desta feita sobre a concorrência
desleal chinesa na área tecnológica. Na edição da semana anterior, 24 de
Novembro, The Economist dedicava um denso artigo ao Gulag chinês
de Xinjiang — um gigantesco campo de “transformação pela educação” onde
se encontram detidos sem julgamento cerca de um milhão de chineses
muçulmanos, maioritariamente da etnia Uighur.
Há duas semanas, a China era também tema de capa da revista britânica The Spectator.
Dois artigos davam conta do aterrador sistema tecnológico de controlo
pelo estado chinês dos mais ínfimos comportamentos dos cidadãos — o
chamado sistema de “crédito social”.
Trata-se de um gigantesco “Big Brother” que já está em curso. “A
Inteligência Artificial é indispensável para a manutenção da
estabilidade social”, diz o governo comunista chinês. E a IA está a ser
usada sem escrúpulos, e sem controlo por entidades independentes, para
registar as compras, os telefonemas, as consultas na internet, e tudo o
mais que (não) se possa imaginar acerca das escolhas dos cidadãos. Em
conclusão, escreve Charles Parton em The Spectator:
“Qualquer pessoa que seja considerada anti-social (ou anti-partido
comunista) será impedida de adquirir bilhetes de comboio ou avião, obter
um empréstimo para comprar casa ou mesmo estudar na universidade. (…) O
Tribunal Supremo anunciou que 6,7 milhões de pessoas foram proibidas de
comprar bilhetes de avião e de comboio”.
Estes e muitos outros aspectos do autoritarismo expansionista chinês são tratados em profundidade num dossier especial da edição de Abril
da revista trimestral norte-americana Journal of Democracy. Oito
artigos, em cerca de 78 páginas, analisam os vários aspectos da política
interna e externa chinesa. Todos convergem na mesma conclusão de que “a
política externa chinesa abraçou uma nova estratégia com o objectivo de
minar a ordem liberal ocidental, promover a hegemonia chinesa na Ásia e
a expansão da influência chinesa à escala mundial”.
Portugal, diz a mais recente edição do semanário Expresso num tom
oblíquo, é o maior destinatário europeu do investimento chinês, depois
da Finlândia. O mesmo jornal vai depois “pescar” um desconhecido
professor de Cambridge (“the other place”, costuma ser dito) que elogia o
“pragmatismo” de Portugal [democrático, eu acrescento] e da China
[comunista, também acrescento eu]. Perante esta complacência nativa face
ao expansionismo chinês, é caso para recordar a pergunta de Winston
Churchill em 1938 face à dupla ameaça nacional-socialista (mais
conhecida por nazi) e comunista: “Não temos nós uma ideologia própria —
se tivermos de usar esta horrível expressão, ‘ideologia’ — não temos nós
uma ideologia própria na liberdade, numa Constituição liberal, no
governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na Petição de
Direitos?”
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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