A política externa é nacional, não pode ser definida por uma visão
estritamente partidária, escreve Fernando Gabeira em artigo publicado
pelo Globo:
Mais ou menos conforme previa, a situação internacional teve pouco
peso na campanha de 2018. Não se parou para pensar na sua complexidade e
nas consequências no futuro próximo do Brasil. O tema ficou reduzido às
relações com os países vizinhos: a Venezuela ocupou o centro, uma vez
que seu drama atravessa a fronteira.
É um debate desconfortável para a esquerda, que apoia Maduro, pois
milhões de pessoas na estrada julgam com os próprios pés o governo
bolivariano. Mas se olhamos um pouco mais amplamente, há outros traços
que favorecem a esquerda. A ascensão de Donald Trump já se dava num
quadro de relativo declínio da supremacia americana, atenuada pela
tática do soft power de Obama.
Trump optou por um caminho isolacionista, cortando vínculos
multilaterais e abrindo mais espaço para a China, que o ocupa com
rapidez. Embora expresse o temor dos americanos com a globalização,
Trump ainda vive um processo de aprendizado, cheio de erros.
Os chineses, a julgar pela visão de Henry Kissinger, planejam por
gerações, a escala de tempo de seu projeto é algo que supera de longe os
planos de um só presidente. Além de ocupar os espaços abertos pelos
EUA, a China se aproxima da Rússia, que, por sua vez, ampliou seu
poderio militar. Um dado dessa força foi o anúncio de Putin sobre as
novas armas nucelares, em março de 2018.
Consegui perguntar a alguns candidatos sobre a relação com a China,
que já é o maior parceiro comercial do Brasil e vive um momento de
expansão. Existe um debate sobre o papel da China como investidora em
países da África. Alguns consideram que ela exerce um forte poder
político por meio da presença econômica, interferindo até nos marcos
regulatórios. Outros afirmam que a fragilidade desses países não pode
ser atribuída à ação chinesa, mas ao precário sistema jurídico local.
Este argumento é interessante, porque os europeus parecem abertos e até
felizes com a atração dos capitais chineses.
Essa questão ficou mais ou menos no ar, a partir de um consenso de
que o capital chinês é bem-vindo. Bolsonaro afirmou que os chineses
podem comprar e vender no Brasil, mas não comprar o Brasil. Não ficou
claro se sua restrição é apenas à compra de terras ou se falava de um
Brasil menos material do que o chão, matas e rios.
A verdade é que a correlação de forças muda no mundo e o peso
econômico da China será cada vez maior. Mas não é conveniente subestimar
não só o poder econômico, mas a influência cultural norte-americana.
Se olharmos a guerra cultural que se travou na campanha entre
esquerda e direita, veremos que ela não é só influenciada pelos
norte-americanos, como também se entrelaça com o debate de lá. Vários
artistas americanos opinaram sobre a eleição brasileira por encontrarem
pontos de identidade com a luta que travam contra Donald Trump.
China e Rússia não veriam com bons olhos manifestações de gays e
mulheres em seu território. Nesse campo cultural, ambas se colocam num
campo oposto ao que se chama de visão de esquerda no Brasil.
A esquerda soube se aproximar das lutas identitárias e carimbá-las
como uma decorrência de sua visão de mundo. Pessoalmente, reconheço que
tive um papel nisso.
Mas algumas dessas lutas em outro contexto, como o russo, por
exemplo, nascem no reduto liberal. E é compreensível, porque quase todas
elas tratam, no fundo, de liberdades individuais.
Na campanha brasileira as coisas não aparecem com nitidez. De um
lado, uma aliança entre conservadores nos costumes e liberais na
economia. É um encontro que tende a produzir faíscas. Em recente
entrevista, Vargas Llosa criticou o economista liberal Paulo Guedes por
se associar a Bolsonaro. Ele acha que são visões incompatíveis.
De outro, na esquerda, a análise da queda de Dilma parece ter
concluído que era preciso não apenas ganhar as eleições, como tomar o
poder. O que significa reduzir os poderes que a confrontaram: Justiça e
imprensa. Dificilmente a tendência autoritária na visão de governo não
se chocará com as pessoas que votaram apenas porque temiam Bolsonaro.
Para mim, todas essas peças que se juntam e se opõem precisam ser
mais bem avaliadas. Minha conclusão momentânea é que, no poder, só uma
direita soft ou uma esquerda soft evitariam a turbulência.
Li uma frase engraçada sobre eleições: são como um bufê, você não
pode pedir um ovo frito. Mas depois das eleições, quem sabe? O vencedor
será o presidente de todos os brasileiros. Nem todos cabem no figurino
dos ideólogos.
Quanto à política externa, que ficará ainda por ser mais bem
discutida, é essencial que seja compreendida como algo nacional e não
definido por uma visão estritamente partidária. Não só porque a
estreiteza exclui um consenso interno mais amplo. É que a complexidade
do mundo assim o exige.
No passado, quase nunca discutíamos o papel do Brasil no mundo. Pelo
menos, antes de avaliarmos que mundo é esse a que nos referimos. Se a
campanha não fizer isso no segundo turno, certamente o problema
reaparece no ano que vem.
Um dos pontos que devem ser muito bem pesados é a política ambiental.
Bolsonaro tem proximidade com Trump nesse tema. Porém adotar a mesma
política no caso brasileiro significa um grande impacto internacional.
Certamente foi grande o impacto da saída dos EUA do Acordo de Paris,
por exemplo. A importância dos norte-americanos na política ambiental
decorre muito de sua importância econômica, seu papel na redução de
emissões. No caso brasileiro, qualquer passo atrás será visto com
sobressalto. É como se uma potência ambiental deixasse de se unir ao
esforço planetário para atenuar as mudanças climáticas.
Tudo isso em véspera de eleição fica um pouco em suspenso como uma
camada de pó. Quando a poeira baixar... Vamos esperar o que dizem as
vozes de domingo. São o farol que vai clarear o novo pedaço do caminho.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário