O conceito "serve para designar a atitude daqueles que, com pretensões
intelectuais, têm a tendência a manifestarem-se em matérias políticas
com um misto de indignação e notório contentamento de si, e um
contentamento de si que se manifesta através do sentimento de pertença a
um grupo caracterizado por uma superioridade moral indisputável e
dotado da ilusão de ter graça". Paulo Tunhas, desenhando a carantonha
das esquerdas daqui e de lá:
Durante anos, atribuí aos escritor norte-americano William Saroyan
uma expressão que utilizei muitas vezes: ”festivo-fascismo”. Lembrava-me
que ele a utilizava num sentido particular, não coincidente com aquele
em que eu a usava, mas não reli a passagem de Saroyan em questão durante
décadas. No outro dia, deu-me a curiosidade de a reler e fui procurar
nos livros o volume de contos The Daring Young Man on the Flying Trapeze
(entre nós, creio, O rapaz do trapézio voador) e tive a desagradável
surpresa de constatar que não apenas ela possui em Saroyan um
significado distinto da ideia que dela construí (isso eu já sabia, como
disse) como também que sem sequer é tal e qual assim: Saroyan refere-se a
um seu método de composição literária que apelida: “the Festival or
Fascist method of composition”. Esta coisa das traições da memória é
sempre desgradável e deixou-me, por defeito, responsável não só pelo
sentido como igualmente pela própria forma. Vou ter de viver com isso.
De qualquer maneira, a expressão continua útil. Serve para designar a
atitude daqueles que, com pretensões intelectuais, têm a tendência a
manifestarem-se em matérias políticas com um misto de indignação e
notório contentamento de si, e um contentamento de si que se manifesta
através do sentimento de pertença a um grupo caracterizado por uma
superioridade moral indisputável e dotado da ilusão de ter graça.
Não se contam as vezes que o festivo-fascismo se dá a ver,
normalmente de maneira gritante, e sempre reivindicando uma justeza e
uma pureza de sentimentos muito acima da média do comum dos mortais, que
imaginam representar superiormente. Aquelas deputadas portuguesas que
se fizeram fotografar com uns cartazesinhos onde se lia “#Ele não” em
protesto contra Jair Bolsonaro são um exemplo tão bom como outro
qualquer da atitude festivo-fascista. Mas são apenas um exemplo entre
mil. O festivo-fascismo multiplica-se nos nossos dias a olhos vistos.
Nada nele indica a adopção de posições políticas reprováveis. Muitas
vezes é exactamente o contrário que se passa. É puramente uma questão de
estilo, um estilo que acaba por colorir a mensagem com certas
características psicológicas particulares, algumas das quais conduzindo
a efeitos políticos nocivos, partindo do princípio que a patetice pode
ser politicamente nociva. O “Je suis Charlie” de há uns anos atrás é
também ele, de um modo aparentemente paradoxal, uma manifestação de
festivo-fascismo.
Segue-se uma lista em nada exaustiva de algumas das características mais salientes da atitude festivo-fascista.
Amor por uma causa. O festivo-fascista ama causas. Mais
precisamente, ele ama, cada vez que ama, uma causa que em si concentra
todas as outras causas. Para o festivo-fascismo cada causa comunica com
todas as outras causas e por isso as pode simbolizar a todas. Deste
modo, evita-se qualquer dispêndio desnecessário de energia, que
inevitavelmente ocorreria se as causas fossem incomunicáveis entre si ou
ameaçassem entrar em conflito (como na vida corrente muitas vezes
entram) umas com as outras. A aparente monomania do festivo-fascista é
na verdade uma forma de pluralismo que evita a dispersão na qual o
pensamento político dos mortais vive. Diz-se uma coisa, mas dizem-se, no
fim, todas as coisas.
Ausência do sentido das proporções. O festivo-fascista sofre
de uma total ausência do sentido das proporções. A sua sensibilidade
demonstrativa impede-o de medir o que quer que seja. Impede-o, por
exemplo, de se conceber a si mesmo de um modo que contextualize as suas
posições em tempos e espaços particulares. Não: ele é o universal sem
falhas que fala com uma voz eterna. Melhor: é a própria voz eterna que
felizmente o encontrou disponível para em seu nome falar.
Contentatemento de si. Nada mais característico do
festivo-fascismo do que uma espécie de felicidade consigo mesmo. O
festivo-fascista adora-se e tem uma tendência irreprimível a dar-se como
exemplo maior do Bem. E acha-se graça: a sua vocalização do Bem tem
sempre algo de, precisamente, festivo. Para o festivo-fascista a
política é, no fundo, uma festa. Nenhuma incerteza o habita. Ele é todo
feito de certezas, em primeiro lugar da certeza da magnífica excelência
do seu próprio ser. O festivo-fascista é narcisista, de um narcisismo em
que a fascinação consigo é pouco subtilmente disfarçada por uma
ostensiva fascinação com a humanidade.
Entusiasmo. O festivo-fascista dispensa por inteiro qualquer
reflexão. A verdade dos seus sentimentos aparece-lhe imediata, e esse
carácter imediato, como uma revelação, suscita-lhe um entusiasmo
imoderado. O festivo-fascismo é uma forma de entusiasmo político que
vive no ambiente da profecia. Há sempre algo do profeta que transcende
as condições humanas normais no festivo-fascista.
Infantilidade e egotismo. Há qualquer coisa de terrivelmente
infantil no festivo-fascismo, a começar pelo seu egotismo. O desejo do
festivo-fascista é um desejo próprio absoluto, intolerante para com os
desejos dos outros e, por isso, incapaz de os compreender. É intolerante
do princípio ao fim. O festivo-fascista canta “We are the World”, mas o
que está verdadeiramente a dizer é: “I am the World”. O
festivo-fascismo é auto-celebratório, a auto-celebração egotista é a sua
principal razão de ser.
Solipsismo colectivo. Um traço fundamental do festivo-fascismo
é o ele apresentar sempre uma convicção de um coração particular de uma
forma que só conhece a urgência da expressão, mas essa mesma
particularidade só ganha sentido se for ao mesmo tempo uma
singularidade, por assim dizer, colectiva. O festivo-fascista deseja
ferozmente a unanimidade e acredita ser a expressão de uma voz
universal. Vive por inteiro no interior de um sentimento grupal em que
cada elemento do grupo é ele próprio, sem se defrontar com nada de
exterior a si. Ou melhor: o exterior a si não se vê dotado de quaisquer
predicados humanos. É como se, na conversa da humanidade, não existisse
verdadeiramente. Por isso, o festivo-fascismo é uma forma singular de
solipsismo: um solipsismo colectivo.
Superioridade moral e delírio de virtude. O festivo-fascista
coloca no centro mais reluzente da sua mensagem a afirmação da sua
própria superioridade moral, passando o conteúdo da mensagem
propriamente dita para um plano secundário. O que lhe interessa antes de
tudo é exibir a superioridade moral em questão, em detrimento de tudo o
resto. Da exibição da superioridade moral ao delírio de virtude o passo
é pequeno. E com o delírio de virtude chega infalivelmente a condenação
dos outros como insusceptíveis de participarem em qualquer discussão.
Genericamente, os outros representam uma espécie de anti-humanidade
indigna de fazer parte numa conversa digna desse nome. Devem ser
excluídos da vida política civilizada.
Todas estas características do festivo-fascismo, como se terá notado,
se confundem entre si. Formam uma espécie de magma, um pouco como no
nacionalismo tal como Orwell muito singularmente o concebia. E, tal como
o nacionalismo de Orwell, não é nem de “esquerda” nem de “direita”,
embora pareça óvio que a sua voz se ouça, hoje em dia, mais para as
bandas da “esquerda” do que da “direita”. Em todo o caso, a ausência de
qualquer cálculo no que respeita às consequências da sua manifestação
generalizada é um traço imprescindível do festivo-fascismo. O que, em
matéria política, é catastrófico. Deus nos proteja da praga que ele
representa. Não sei se nos vai proteger. (Observador).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário