Muitos trabalhadores-bosta florescem no narcisismo dos pequenos poderes, escreve João Pereira Coutinho em sua coluna na FSP:
Tempos atrás, fui
convocado para uma reunião "importantíssima". Disse que iria e perguntei
a que horas começava. "Nove da manhã", responderam. E a que horas
terminava?
Silêncio do outro lado da linha. Cinco segundos depois, a réplica: "Terminar? Como assim?". Entendo o pasmo.
Na cultura laboral reinante, a reunião pode começar a uma hora definida; mas só acaba quando Deus quiser.
A ideia de que as
pessoas têm trabalho (verdadeiro) para fazer e uma vida (pessoal) para
viver não passa pela cabeça do burocrata moderno. Ele acredita
genuinamente que reuniões intermináveis —aquelas reuniões de 15 minutos
que acabam durando duas ou três horas— são prova de excelência e
produtividade.
Fui. A reunião durou
três horas, quando teria sido possível tratar do assunto pelo telefone.
Mas devo acrescentar, em minha defesa, duas coisas: primeiro, que não
voltarei a pôr os pés em martírio semelhante; e, segundo, que esses
martírios não fazem parte das minhas rotinas, embora façam parte da
rotina do trabalhador comum.
Vamos por partes:
existem "trabalhos de bosta" ("shit jobs"), "trabalhos-bosta" ("bullshit
jobs") e "trabalhos que acabam virando bosta" ("jobs that were
bullshitised"). Essas categorias filosóficas pertencem a Eliane Glaser
em ensaio para o Guardian que merece ampla divulgação.
"Trabalhos de bosta"
são trabalhos duros e necessários. Como limpar as ruas para que as
nossas cidades não se convertam em antros fétidos e pestilentos. São
trabalhos mal pagos que deveriam ser regiamente pagos.
"Trabalhos que acabam
virando bosta" são trabalhos que não são bosta (originalmente), mas que
se convertem em bosta pela burocracia demencial em que se afundam.
A academia é um
excelente exemplo: em teoria, um professor universitário ensina e faz
pesquisa; mas ensinar e pesquisar são hoje atividades marginais da
profissão. O essencial está em mil tarefas burocráticas que transformam
os acadêmicos em profissionais de "trabalhos-bosta". E o que são esses
trabalhos?
Simplificando, são
aqueles trabalhos que, se desaparecessem hoje, você não sentiria falta.
São trabalhos sem sentido, normalmente de natureza "administrativa", que
ocupam uma parcela cada vez maior do mercado laboral.
O antropólogo David Graeber, analisado por Eliane Glaser, escreveu um ensaio (que agora virou livro: "Bullshit Jobs")
que resume o essencial: em 1930, J.M. Keynes profetizou que os avanços
tecnológicos acabariam por permitir aos seres humanos 15 horas de
trabalho semanal. Azar: nunca estivemos tão ocupados como agora. Mas
ocupados a fazer o quê?
Nos Estados Unidos e
no Reino Unido, escreve Graeber, diminuiu drasticamente o número de
trabalhadores domésticos, industriais e agrícolas. Tradução: não estamos
trabalhando em casa, na fábrica ou no campo.
Ao mesmo tempo, subiu
vertiginosamente o número de trabalhadores no "setor administrativo".
Isso se explica por razões econômicas?
Nem por isso, defende
Graeber: a maioria dos "trabalhos-bosta" não tem qualquer racionalidade
econômica. A razão é moral e política: as pessoas trabalham 40 ou 50
horas semanais, e não as 15 que seriam suficientes, porque é do
interesse dos poderes estabelecidos que uma multidão de gente não
dedique o seu tempo e os seus esforços a cogitar um mundo melhor.
Sim, a última parte
do raciocínio de Graeber não me parece convincente: no seu
cripto-marxismo, Graeber parte da premissa otimista de que a multidão,
sem "trabalhos-bosta", estaria devotada à construção da utopia.
Além disso, confesso,
eu preferia ter um "trabalho-bosta" a um "trabalho de bosta", que era o
tipo de trabalho fatal dos nossos infelizes antepassados.
Mas a inquietação continua: como explicar a profusão de "trabalhos-bosta"?
Arrisco uma hipótese
descartada por Glaser e Graeber: é preciso não subestimar a militância
de "trabalhadores-bosta". Falo de trabalhadores que não deploram o tipo
de trabalho que têm —mas, pelo contrário, encontram na burocracia
infinita um sentido que me transcende e uma marca de distinção face aos
restantes.
Não se queixam. Eles
existem para que os outros se queixem. Adaptando uma expressão
freudiana, há muitos trabalhadores-bosta que florescem no narcisismo dos
pequenos poderes.
Basta lembrar a minha reunião: três horas escutando bosta —e que belos sorrisos naquelas caras em transe!
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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