O congelamento das despesas federais em algumas áreas chaves – que deve ser utilizado pelo governo federal para tentar estancar o rombo nos gastos públicos – pode significar uma verdadeira catástrofe para a educação e a saúde públicas. Não cumprimento do Plano Nacional de Educação, que trata da expansão e acessibilidade do ensino, e o fechamento de hospitais, são apenas uma parte do preço a se pagar pela contenção da dívida.

O objetivo do governo federal é desatrelar o repasse de recursos destinados a essas duas áreas da arrecadação federal. O lastro passará a ser a inflação, ou seja, não haverá ganho real. Atualmente, a União aplica, pelo menos, 18% da arrecadação na área educacional, enquanto os estados e municípios entram com 25%. Em 2015, o governo repassou R$ 59,3 bilhões. 

Para o especialista em educação pública e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Luciano Mendes de Faria Filho, uma redução dos recursos representará, a longo prazo, um agravamento da falta de mão de obra qualificada no Brasil. 

O desastre começaria na educação básica, com impacto direto no Plano Nacional de Educação. O documento, formulado pelo Ministério da Educação (MEC), prevê uma série de ações necessárias para ampliação do ensino no país. Uma das determinações do plano, que é a garantia de educação gratuita para crianças de 4 a 17 anos, se tornou emenda constitucional, sendo este ano o prazo para a preparação das escolas. Até então, a escola pública tinha compromisso com alunos de 6 a 14 anos. “Para incluir uma base maior de alunos, é óbvio que são necessários mais recursos. E boa parte das escolas estão com salas cheias”, afirma. 

No ensino superior, estão em xeque as bolsas de estudo para acesso às instituições particulares e os investimentos nas universidades federais e pesquisas. No caso da saúde, havia sido proposta uma emenda à Constituição que previa o repasse de 10% da receita corrente bruta da União para a área. Estados e municípios entrariam com 12% e 10%, respectivamente. Mas o texto foi vetado pela então presidente, Dilma Rousseff. A regra em curso é a aplicação do mesmo valor do ano anterior, acrescido da variação do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2015, o repasse foi de R$ 100 bilhões. Agora, a recomposição restrita à inflação aperta ainda mais o orçamento da saúde.

“Essa medida vai gerar um verdadeiro colapso na saúde do país. Devemos ter um efeito em cascata com o fechamento de várias unidades de saúde”, afirma o vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Lincoln Lopes Ferreira. “Os hospitais que têm o SUS como principal fonte de recursos estão reduzindo ou encerrando as atividades”

Atendimento na saúde pública deve ficar ainda mais crítico

Com os investimentos em saúde insuficientes, o número de leitos para internação tem caído no Brasil. Em cinco anos, deixaram de existir quase 24 mil vagas, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM).  Para o especialista em saúde pública e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Marcos Werneck, o congelamento de recursos para a área deverá agravar esse quadro. “O número de profissionais nas unidades básicas de saúde vai reduzir. A falta de medicamentos e equipamentos, já conhecida nos hospitais brasileiros, vai se intensificar”, diz.

As perspectivas para a educação também são as piores possíveis. “Sendo bem franco, a situação já está terrível e não deverá melhorar tão cedo. A educação tecnológica foi abandonada, as verbas para pesquisas contingenciadas. O que o governo quer é prometer o que pode cumprir. Mesmo não resolvendo a questão, pelo menos é mais sincero”, avalia o presidente da Associação Brasileira da Educação, Paulo Alcantara Gomes.

Entre os parlamentares, o discurso comum é o de que  alguma medida deve ser tomada para aliviar o caixa do governo federal. “Temos que analisar o quadro caótico herdado que deixou o governo quase sem margem de manobra. Medidas extremas são necessárias”, afirma o deputado federal Rodrigo de Castro (PSDB). O deputado Júlio Delgado (PSB) concorda que a situação é crítica, mas questiona se educação e saúde foram as melhores opções. “As medidas são necessárias, mas não podem repercutir negativamente na área social com agravamento da desigualdade, como deve ocorrer”, afirma. 


Restrição no orçamento da educação trava expansão da qualificação de mão de obra