Quem está no desgoverno do Brasil é Dilma, não Eduardo Cunha! Ou: Resta a esperança no fundo da caixa…
Já
li os jornais de domingo, sites noticiosos, colunistas e coisa e tal… A
gente fica com a impressão de que todos os problemas da presidente
Dilma Rousseff se resolverão amanhã caso Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
presidente da Câmara, seja sequestrado por ETs. A crise acaba, o Brasil
encontra o seu rumo, os petistas, inclusive os das redações, voltarão a
sorrir.
Acho que o
próprio deputado, ao se barbear toda manhã, precisa refazer o roteiro
em sua cabeça, encarando-se, reflexivo: “Por que é mesmo que eu tenho
tanto poder?”. É evidente que alguns ditos analistas políticos estão
deixando que o ódio e o preconceito tomem o lugar da razão.
Poucos se
dão conta de que Cunha hoje, como no poema “À Espera dos Bárbaros”, de
Constantino Kafávis (já o citei aqui), é, para Dilma, uma espécie de
solução. Quando a presidente precisa justificar a própria incompetência,
aponta o dedo contra o seu inimigo de estimação. Na Câmara, o líder do
governo é José Guimarães (CE), e o do PT é Sibá Machado (AC). E os
petistas e seus acólitos se voltam contra o peemedebista? Ora… Quem fez
tais escolhas esperava qual resultado?
É evidente
que a dupla patética não pode responder pela rotina de desastres no
Congresso, muito especialmente na Câmara. Eles também já são sintomas da
esclerose petista. Se ao Planalto e ao partido pareceu que são esses os
líderes do momento, a gente consegue ter noção de como anda o resto.
Não é só
isso. Vejam a coordenação política de Dilma — não estou me referindo à
do condomínio governamental, que está a cargo de Michel Temer, que vai
fazendo o possível. Falo dos ditos homens fortes da presidente na
interlocução política. Um é Aloizio Mercadante, da Casa Civil. Ganha um
bilhete pra Pasárgada quem conseguir dizer que diabos, exatamente, ele
faz e que área do governo está afeita à sua pasta. Quem são seus
interlocutores? Líderes do Parlamento? Os demais ministros?
Representantes da oposição? Qual é a agenda do homem? E é Cunha quem
toma pancada?
Há ainda, o
que é do balacobaco, Jaques Wagner. Dilma tem 39 ministérios, mas o
titular da Defesa se comporta como um de seus porta-vozes. É bem verdade
que os comandantes militares devem erguer as mãos para o Céu. Melhor
Wagner sem fazer nada, ciscando na área política, do que tentando fazer
alguma coisa nas Forças Armadas… E Cunha é que deve apanhar?
Fiquem
calmos. Ainda existe o espantoso Miguel Rossetto, cujas ideias costumam
ser ainda mais confusas do que seu cabelo e mais perturbadas do que seu
olhar. Sua função principal, consta, é fazer a interlocução com os
movimentos sociais — só os de extrema esquerda, é claro! As demais vozes
da sociedade, especialmente aquelas críticas ao governo, são
cotidianamente hostilizadas por esse gênio político. E Cunha é que vai
para o paredão?
Ora, ainda
que a tal pauta-bomba nascesse da vontade imperial do presidente da
Câmara — mentem os jornalistas e colunistas que afirmam isso ao leitor;
não se trata de matéria de opinião, mas de matéria de fato —, o seu
efeito desestabilizador, no presente, é nulo. Se todas aquelas
maluquices forem mesmo aprovadas, a explosão só virá bem mais tarde.
Sim, é preciso impedir as porra-louquices, mas não são elas que
paralisam o governo.
De resto,
como ignorar que o PT — sim, o PT!!! — votou em massa em favor de
propostas que concedem reajustes salariais pornográficos a categorias já
privilegiadas de servidores? Os petistas Paulo Paim (RS) e Lindbergh
Farias (RJ) resolveram ser os porta-vozes do movimento contra o ajuste
fiscal no Senado. E os companheiros resolvem hostilizar… Cunha?
Os
colunistas que enveredam por aí deveriam ter algum pudor — a boa e velha
vergonha na cara — e expor a seus leitores os instrumentos de que
dispõe o presidente da Câmara, então, para exercer essa força tão
avassaladora, encabrestando 513 deputados e mandando para as cordas a
máquina pantagruélica do governo federal! Que tipo de benefício Cunha
poderia oferecer que o governo não pudesse bancar, multiplicando por
dez, por cem, por mil? Se falta honestidade intelectual a essa gente,
que não falte ao menos um pouco de senso de ridículo.
Mais
ainda: Cunha foi colhido pelo lado escuro da Operação Lava Jato — sim,
ele existe — e hoje está na berlinda em razão do depoimento de Julio
Camargo, o delator que será premiado pela “verdade” que disse e também
pelo seu contrário. Afinal, ou antes ou depois, esse senhor mentiu.
Antes e depois, homem acostumado a comprar pessoas por somas fabulosas,
ele deve ter tido milhões de motivos para fazê-lo. De toda sorte, Cunha
teve subtraída parte substancial de seu poder — ou, ao menos, da
perspectiva de poder que representava. E assim será enquanto estiver sob
investigação. Respondam-me: é um homem nessas condições que consegue
paralisar o governo?
Não! A verdade é bem mais simples, e a realidade, muito mais complexa.
A verdade é
que Dilma não tem agenda nenhuma a negociar nem com governistas nem com
oposicionistas. Ocupa-se hoje de tentar minorar os efeitos dos
desastres que ela própria e Lula produziram na economia. E, por óbvio,
não se trata de uma tarefa trivial. Os problemas começaram a desabar
sobre a sua cabeça já em meados de 2012, antes mesmo que completasse
metade do seu primeiro mandato. Para cada problema complexo e de difícil
solução, ela e Guido Mantega ofereceram uma resposta simples e errada.
As
eleições chegaram quando a economia já caminhava para o abismo, e aí foi
preciso que a candidata Dilma contasse mentiras espetaculares sobre o
passado, o presente e o futuro e que demonizasse as respostas que ela
própria teria de dar — E ELA SABIA DISSO — para conseguir aquela
estreita margem de votos que lhe garantiu a vitória.
Somem-se a
isso os descalabros revelados pela Operação Lava Jato, e então se
entende por que 71% acham o governo ruim ou péssimo e por que 66% querem
Dilma fora da cadeira presidencial, segundo o Datafolha. Volto a
perguntar: o que tem Cunha a ver com isso? Note-se à margem: ele só não é
um aliado do governo porque a governanta achou, contra todas as
evidências, que conseguiria eleger o presidente da Câmara…
Essa
gritaria contra Cunha traduz sabem o quê? Arrogância de gente acuada. Em
vez de o governo tentar uma interlocução com o Congresso, quer
silenciá-lo no berro. Não! Eu não gosto dos absurdos que andam votando
por lá e tenho descido o porrete nas maluquices. Mas é uma estupidez e
uma mentira atribuir a um deputado a responsabilidade pelos desatinos.
Quem está
no desgoverno do país é Dilma, não Eduardo Cunha. Ademais, se ELE
renunciasse amanhã, o país ficaria na mesma. Se ELA renunciasse, ao
menos a esperança poderia sair do fundo da caixa…
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