Você é um marciano recém-chegado? Descubra aqui como
separar o joio do trigo – ou entender o que é verdade e o que é só
interesse no calor da temporada eleitoral
por Nirlando Beirão
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publicado CARTA CAPITAL
Chico Bela
Alternância do poder
• Você passa a defendê-la com convicção
religiosa, quando o partido do qual é inimigo permanece no poder, ao
longo de reeleições sucessivas, ainda que avalizadas democraticamente
pelo voto. O primeiro passo é atacar a reeleição, instituída, aliás,
criada de uma maneira bem marota pelo ex-presidente Fernando Henrique ,
na esteira do projeto de 20 anos de poder do PSDB e à base da compra de
votos no Parlamento. Um golpe constitucional sem nenhuma sutileza
democrática a beneficiar o mandatário em exercício, o qual, por mera
coincidência, você apoia. Alternância só é necessária quando se está
fora do poder. Caso contrário, atrapalha o aperfeiçoamento da
democracia. Em São Paulo, ela é especialmente execrada. Os paulistas
preferem perpetuar um mesmo grupo político, enquanto bradam contra o
risco de uma ditadura em nível federal.
Aparelhamento do Estado
• Quem aparelha o Estado são os
adversários. Duvida? Basta ler jornais e revistas, sempre muito zelosos
em fiscalizar os adversários, ainda que só a eles, e acusar o partido no
poder, desde que não seja o de sua preferência, de “aparelhar o
Estado”. Isso significa, basicamente, o seguinte: o partido no poder
nomeia para os cargos de confiança pessoas... de sua confiança. Você
reclama, iracundo: o Estado faz a festa da “companheirada”. A imprensa
partidariamente engajada trata de denunciar a “farra das nomeações”. Dá
para imaginar a perplexidade do leitor: o que queriam os jornalões? Que o
partido no poder nomeasse adversários?
A vigilância ética é de mão única: se um
presidente da República simpático a você nomeia para um importante cargo
na área de energia um genro, não é por nada, seus maldosos, apenas uma
coincidência. Quando o partido que você apoia aparelha o Estado com a
sua companheirada, tenha certeza: os apadrinhados são gente de bem, de
notório saber e reputação ilibada. Se aquele diretor da estatal nomeado
por você ou pelos seus for pego mais tarde com a mão na botija, é um
caso de cooptação estimulado pelo clima corrupto instaurado por seus
adversários.
Bolivariano
• Se você se interessa pela sorte dos
pobres, excluídos e vítimas de discriminação, a ponto de criar programas
sociais compensatórios de emergência, é bolivariano. Se a política
externa que você defende não se rebaixa aos ditames da Casa Branca,
busca parcerias com nações fora da órbita imperial do dólar e do euro e
chega ao cúmulo de lançar as bases de um FMI dos emergentes, trata-se de
“ilusão bolivariana”. Bolivariano é o neocomunista. O comunismo morreu,
mas o anticomunismo continua a gerar bons negócios. Embora o termo seja
démodé, um bolivariano pode ser chamado de populista, na falta
de termo melhor. Antônimo: Racionais. São os almofadinhas da Escola de
Chicago e da PUC-Rio que não ligam para a sorte da maioria, mas se
apegam fervorosamente a crenças que a realidade teima em desmentir.
Estado mínimo, por exemplo.
Choque de gestão
• Significa cortar salários, promover
demissões em massa e diminuir o investimento público, com base na teoria
de que Estado mínimo é Estado eficiente. Faz muito sucesso entre
aqueles que não sofrem os seus efeitos imediatos. No choque de gestão
não cabem as migalhas assistencialistas do Bolsa Família, um jeito de
perpetuar a miséria, não de reduzi-la, conforme a tese. Recomenda-se,
porém, não ser explícito. Melhor dizer que os programas sociais “serão
aperfeiçoados”.
Deus
Crises e bonanças internacionais
• As crises servem de justificativa para
governos amigos. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do
cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a
gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. Caso
se saia mal, é resultado exclusivo da incompetência de quem está no
poder, que mente descaradamente ao evocar os efeitos deletérios globais,
mesmo quando se trata da maior debacle planetária desde o início do
século XX.
Coligações e governabilidade
• Seu partido, no poder ou quando em
disputa eleitoral, consegue seduzir legendas de aluguel para uma teia de
alianças convenientes para garantir a governabilidade ou engrossar o
tempo no horário eleitoral gratuito? Parabéns, você é uma figura de
aguda sensibilidade política, negociador de fino trato. Seu adversário
fez o mesmo? Denuncie a falta de escrúpulos, a atroz barganha de
princípios por conveniências, da honradez pela ambição. Conte sempre com
os amigos na mídia para corroborar a sua tese. Aquele seu ex-ministro
do PMDB que era honrado, mas mudou de lado, será descrito como um homem
desprezível.
Corrupção
• Prática entranhada nos governos... dos
outros. Infelizmente, a corrupção às vezes ganha fatos comprovados e
nomes ilustres de aliados seus. Mas não se preocupe. Vale o mesmo do
item Coligações. A mídia amiga estará a postos para jogar esse tipo de
acusação, obviamente gratuita e injusta, para debaixo do tapete. Há
corruptos e corruptos. Aqueles do partido adversário expõem uma
maquinação coletiva, um assalto aos cofres públicos, uma quadrilha
organizada e perene, destino manifesto da tal legenda e da administração
partidária. Os seus representam casos isolados, sem nenhuma relação com
as práticas e princípios de sua agremiação. Também vale dizer que a
corrupção desenfreada dos adversários é um mal tão grande que afeta até
gente da sua base. É a tal falta de exemplo “de cima”.
Corruptores
• Sem eles não existe corrupção. Como
alguns podem eventualmente (ou frequentemente) financiar candidaturas
amigas, melhor esquecer o assunto.
Delação premiada
• Ela só tem valor se for vazada
cirurgicamente para atingir os nossos concorrentes. Se, no meio do
lamaçal, surgir o nome de um aliado, diga que as revelações são açodadas
e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o
vazamento ser também um crime, de responsabilidade, inclusive, do
ministro da Justiça, caso envolva a Polícia Federal, bem… esqueça.
Dossiês
• Se a mídia está do seu lado, fique
tranquilo. O esforço de reportagem visará descobrir quem produziu
dossiês caluniosos contra você e os seus. Editoriais e colunistas vão
denunciar as “baixarias” de campanha (ver o próximo item). Não
importa se o dossiê não é um dossiê, mas denúncias comprovadas e
comprováveis. Mas, se a imprensa te enxergar como inimigo, se cuide.
Tudo poderá ser usado contra você, de declarações sem lastro de notórios
bandidos a contas falsas no exterior ou fichas “frias” na polícia.
Marqueteiros
Se um adversário sobe nas pesquisas de
intenção de voto, é hora de atribuir o preocupante sucesso à ação
mistificadora dos marqueteiros. Vale dizer, eles são capazes de botar em
pé um pacote vazio de ideias e até eventualmente eleger “um poste”.
Nesse caso, não convém lembrar que o seu candidato igualmente possui um
exército de experts em bruxarias político-eleitorais, pois isso
comprometeria o argumento de que o candidato, aquele que você e a
imprensa do privilégio apoiam, apenas expõe suas ideias reais, é de uma
espontaneidade radical e nunca se deixaria manipular por técnicas
artificiais de persuasão ou pela maquiagem mercadológica. Os
adversários, estes sim, fazem o que for preciso para chegar ao poder, ou
para mantê-lo (verbete Alternância de Poder). Você e os seus nunca
participam de uma eleição para ganhar, mas em nome de um bem maior.
Mensagens subliminares são a maior especialidade dos inimigos. Uma
doutora em semi-óptica, perdão, semiótica, alerta a respeito das novas
ciclovias, traçadas pelo prefeito inimigo de São Paulo, para “o efeito
das cores sobre o nosso sistema nervoso central” e sugere que a cor
escolhida “não passa de uma descarada propaganda vermelha do PT”. Em
todo o mundo, as faixas para bicicletas costumam ser vermelhas, mas não
importa.
Liberdade de expressão
• É o direito inapelável, intocável,
irreversível dos meios de comunicação de exprimir o pensamento único de
seus proprietários, em consonância com seus interesses pecuniários e sua
pauta eleitoral. É facultado o direito de mentir e distorcer. Em
temporadas eleitorais, a toada de uma nota só torna-se uma obsessão, de
forma a impedir que vaze para o noticiário algum acorde dissonante por
parte da ralé das redações ou dos candidatos do outro lado. Quando os
adversários pretendem exercer, eles também, a liberdade de expressão,
valem-se de um eufemismo: quem responde a seus desmandos defende a
censura.
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