Cau Gomes
Ex-senadora tem que conciliar vocação ambientalista com desenvolvimento
Uma semana após o acidente de avião que matou o ex-presidenciável
Eduardo Campos (PSB), a então vice, Marina Silva (PSB), assumiu o
desafio, como cabeça de chapa, com a determinação de “crescer”, como ela
mesma frisou.
Para isso, em meio às baixas na coordenação da campanha ao Planalto de
pessoas da confiança do ex-governador de Pernambuco, Marina terá como
árdua missão ampliar seu discurso de sustentabilidade – causa nunca
defendida pelo PSB. Um complicador, já que terá de preservar o
eleitorado de Campos, além dos votos dos até então indecisos, como
indicado pela última pesquisa Datafolha. E mais: tentar atrair votos de
Dilma (PT) e Aécio (PSDB), o que não aconteceu nesse primeiro momento,
conforme a mesma pesquisa.
Cientistas políticos ouvidos pelo Hoje em Dia acham
que a mudança é necessária, em função da nova configuração da disputa e
da possibilidade de segundo turno, mas ainda não é certo se Marina
conseguirá tal feito por dois motivos: sua forte personalidade e a
dificuldade de conciliar sua vocação ambientalista com o “legado
desenvolvimentista” de Campos.
“Ainda é cedo para dizer, mas Marina terá de ampliar seu discurso, de
forma rápida, porque virou candidata na última hora. Tem acordos
firmados antes por Campos. Porém, essa mudança tem limites, porque ela
não poderá mudar sua trajetória. É sempre complicado manter coerência”,
afirma o cientista político da UFMG Carlos Ranulfo Melo.
Para Ranulfo, os pontos cruciais que Marina precisará alterar são a
abordagem sobre a economia e o desenvolvimento do país, sem violar o
viés ambiental, e enfrentando resistência interna de uma parte do PSB,
que a vê como “hospedeira” na legenda.
Na avaliação do professor Gilberto Barros, do Departamento de Ciências
Políticas da PUC Minas, a imagem de Marina também precisa ser alterada,
para mostrar força e proximidade com o povo.
“Para ela ampliar o que tem hoje, não deve mudar só o discurso, mas a
imagem pouca dinâmica no horário eleitoral e até mesmo em seu visual.
Ela passa a ideia de sisuda, áspera, mas também tem uma postura sofrida e
frágil. E o lado autoritário dela pode atrapalhar”, avalia. “Ela está
fazendo um discurso morto. Ela não combina com povo, não transmite
empatia, está triste e não explora nem mesmo essa dramaticidade”.
Atuação exige cautela para não dilapidar as chances eleitorais
O cientista político da UNB Rodolfo Marcílio Teixeira acredita que,
para não descaracterizar seu discurso, a candidata do PSB deverá evitar
repensar o Código Florestal, aprovado em 2012 pelo Congresso Nacional e
criticado por aliados de Marina.
“Acredito que Marina vá fazer essa transição conciliando sua ideia
ambientalista com alguns acordos fechados por Campos, evitando punições
severas para o setor agrícola. Ela até já fez um aceno ao setor de
agronegócio”.
Marina também já disse que discorda da ideia de que o agronegócio tenha
restrições a seu nome. “Tem muita gente que está na vanguarda na
integração de economia e ecologia”, declarou, citando como exemplo a
área do etanol.
Para o professor de Ciência Política da UFJF Paulo Roberto Figueira
Leal, Marina deve preservar seu perfil por ter maior densidade eleitoral
do que Campos.
“Não sei se ela deve ampliar sua fala. Os 20 milhões de votos que ela
teve em 2010 foram obtidos justamente porque ela tinha perfil diferente
de todos os outros, não era só mais uma. O PSB fez muitas alianças
esdrúxulas e, se ela concordar, vai dilapidar suas chances eleitorais”.
Se em 2010 Marina apareceu como uma surpresa no jogo eleitoral, ainda
filiada ao PV, hoje ela é mais conhecida, inclusive junto ao meio
empresarial. Ela já fez mudanças significativas até mesmo em relação às
doações de campanha, que não poderão vir de empresas dos setores de
bebidas, fumo, agrotóxicos e armamentos.
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