BLOG ORLANDO TAMBOSI
O procurador-geral da República não tem nenhum pudor em mostrar-se servil ao governo de plantão. Ao contrário, faz disso sua marca registrada, na expectativa de mais uma recondução. Editorial do Estadão:
Em
2019, ao indicá-lo para chefiar a Procuradoria-Geral da República
(PGR), o presidente Jair Bolsonaro disse que Augusto Aras seria a
“rainha” no tabuleiro de xadrez de seu governo, ou seja, a peça mais
poderosa na defesa do “rei” e no ataque aos seus desafetos. Era uma
afirmação absolutamente equivocada, tendo em vista o papel institucional
que cabe ao procurador-geral da República desempenhar. Em vez de servir
à ordem jurídica e ao regime democrático, como determina a
Constituição, o cargo mais alto do Ministério Público iria servir a Jair
Bolsonaro.
O
fato é que, ao longo de três anos e meio – de setembro de 2019 até o
fim de 2022 –, Augusto Aras não se sentiu constrangido com as palavras
de Jair Bolsonaro. Ao contrário, fez delas o seu lema. A PGR foi fiel
escudeira do governo federal, mesmo diante dos casos mais escabrosos –
com destaque para as omissões na pandemia e os ataques à democracia.
Segundo o procurador-geral da República, não havia motivo para a PGR
atuar, pois tudo estava sempre dentro da mais plena normalidade
institucional.
A
proteção de Augusto Aras a Jair Bolsonaro não se baseou apenas em
inação. Ele trabalhou ativamente para dificultar as investigações do
Ministério Público sobre as mobilizações golpistas, extinguindo grupos
de investigação e devolvendo a procuradores pedidos de informações ao
Exército e à polícia sobre acampamentos em quartéis.
A
ferrenha atuação de Augusto Aras em favor do bolsonarismo durou, no
entanto, enquanto Jair Bolsonaro esteve no poder. Bastou a mudança de
presidente da República para que a PGR de Augusto Aras inaugurasse uma
nova compreensão do Direito e da realidade.
Em
tese, essa alteração repentina de posicionamento deveria gerar
constrangimento. No caso de Augusto Aras, parece que ele busca
exatamente transmitir essa impressão. Quer deixar estampada sua
subserviência. Quer ser visto como o primeiro aliado do governante de
plantão. Quer ser o procurador-geral da República dos sonhos de todo
presidente da República.
Não
há limites para a desfaçatez. O governo Lula ajuizou no STF uma ação
inteiramente absurda questionando a forma como foi feita a privatização
da Eletrobras. Pois bem, Augusto Aras pôs a PGR a serviço de Lula e
defendeu o aumento do poder de voto do governo na Eletrobras. Os
argumentos são esdrúxulos. “A União, até então controladora da empresa,
presenciou, de mãos atadas, os acionistas minoritários limitarem seu
poder de voto, em benefício exclusivo deles e em prejuízo exclusivo da
União”, disse Augusto Aras, numa inversão da história. Ressalte-se: o
que o procurador-geral da República questiona agora foi feito durante o
governo Bolsonaro, quando ele não viu nenhum problema.
São
muitos os casos de mudança de posição da PGR para agradar ao governo
Lula. Neste ano, Augusto Aras passou a defender a responsabilização das
plataformas digitais por conteúdos publicados pelos usuários nas redes
sociais; a postular a inconstitucionalidade da Lei das Estatais; a
questionar o indulto natalino concedido por Jair Bolsonaro, dizendo que
era excessivo e desproporcional; a defender a essencialidade da gasolina
para fins de incidência do ICMS.
O
novo Aras, o do governo Lula, pediu também que o STF obrigue o
Congresso a regulamentar o direito do trabalhador contra demissões
arbitrárias ou sem justa causa. Em uma ação envolvendo o Marco do
Saneamento, disse que a Corte não deveria analisar o pedido contra o
serviço estatal sem licitação, bem ao gosto do governo federal. E,
rejeitando suas próprias declarações anteriores, criou uma “Comissão de
Defesa da Democracia” – vejam só – no dia 9 de janeiro.
Por
ter servido a diferentes regimes, transitando com extrema facilidade
por diversas correntes ideológicas, o político francês Joseph Fouché
(1759-1820) entrou para a história como o paradigma do oportunismo e da
ausência de convicções na vida pública. Sua escolha era sempre pelo lado
vencedor. Na vida política, isso gera indignação. No Ministério
Público, é atestado de incompatibilidade com a função.
Postado há 2 weeks ago por Orlando Tambosi

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