E, além de escrever, desenha cada vez melhor: teria reconhecimento mundial como alguém no nível de James Thurber ou Saul Steinberg se tivesse nascido falando a língua do imperialismo ianque. A crônica de Ruy Goiaba para a Crusoé:
Uma
das expressões em inglês que acho mais difíceis de verter mantendo a
graça do original é “hatchet job”. É chatinha de traduzir, mas fácil de
entender: hatchet é machadinha, e aquilo que os anglofalantes chamam de
“trabalho de machadinha” é “ataque cruel, escrito ou falado, a alguém ou
algo”, conforme a definição do Cambridge Dictionary. Pois bem, não
conheço melhor —ou mais divertido — hatchet job em português brasileiro
do que a demolição a que Millôr Fernandes, que teria completado 100 anos
na última quarta (16), submeteu Brejal dos Guajas, obra literária do
imortal bigode de José Sarney.
Publicado
em janeiro de 1988 no Jornal do Brasil, o texto estava num saite
(grafia preferida do humorista) que saiu do ar, o Millôr Online, mas
ainda pode ser encontrado em alguns desvãos da internet. É difícil
resistir à tentação de citar a íntegra do hatchet job (diatribe,
invectiva, descompostura etc. — escolha sua expressão favorita). Millôr
começa se dizendo enganado pelos amigos dele que juravam que o que
Sarney escrevia era bom. “Por isso, fui reler o Brejal dos Guajas com
mais atenção. Fiquei estarrecido. Não se pode confiar o destino de um
povo, sobretudo neste momento especialmente difícil, a um homem que
escreve isso. Não tendo no cérebro os dois bits mínimos para orientá-lo
na concordância entre sujeito e verbo, entre frase e frase, entre ideia e
ideia, como exigir dele um programa de governo coerente pelo menos por
24 horas?”
O
trabalho da machadinha prossegue: Sir Ney — que era o ocupante daquela
cadeira no Palácio do Planalto, lembrem-se — escreveu um livro que, “em
qualquer país civilizado”, seria motivo para impeachment. Leu umas 20
páginas de Jorge Amado, umas cinco de Guimarães Rosa e acabou com uma
“indigestão na cabeça”. O livro “não tem uma frase que não seja errada
em si mesma ou incoerente em relação a outras mais adiante ou mais pra
trás”. “Descoordenado motor (incapaz de se agachar e tirar a etiqueta de
um sapato), Sir Ney é mais descoordenado como pensador.” Um parágrafo
descreve o enredo deste jeito:
“A
cidade, que não tem escola, tem professora e alunos, não tendo
telégrafo transmite telegramas, não possuindo edifícios públicos tem
prefeitura, câmara de vereadores, juizados de casamento, dois cartórios,
ostenta uma força policial de pelo menos 12 homens (relativamente, o
Rio teria que ter uma força policial de quase meio milhão de policiais),
é dominada por dois primos por pais diferentes (!!!!), ‘ricos e
poderosos’, e, tendo só duas ruas (quase uma impossibilidade
urbanística; eu sei como desenhar uma cidade de duas ruas, ele não
sabe), tem duas orquestras (ele quer dizer bandas), e comporta ainda
mercado, lojas, igrejas matriz etc. O verdadeiro milagre brasileiro! (…)
Essas duas espantosas ruas de 120 casas (com o que Sir Ney quer
significar um vilarejo perdido do mundo), por meus cálculos matemáticos
irrefutáveis, abrigam uma população de 15.272 pessoas, o que faz do
Brejal em 1945, época da istória, talvez a maior cidade maranhense,
depois de São Luís.” A demolição segue: “Ou isso é o mais maravilhoso
realismo mágico de que eu jamais tive notícia, obra esfuziante de um
gênio que só vai ser compreendido daqui a séculos, ou estamos diante da
mais espantosa incapacidade de expressão da literatura universal.”
Enfim:
cacem a íntegra, leiam e lembrem-se de que Sarney ocupa uma cadeira na
Academia Brasileira de Letras há quase 43 anos — coisa de que Millôr
jamais passou perto, talvez porque jogar frescobol de fardão fosse meio
incômodo. Aplica-se plenamente a Milton Viola Fernandes, transformado em
“Millôr” pelos garranchos do escrivão que o registrou, aquela piada que
os argentinos costumam fazer sobre Carlos Gardel cantando: morto em
2012, o Irritante Guru do Méier escreve cada vez melhor — é só comparar
com o que há em volta hoje (no Bananão, a tradição é que o humor burro
seja mais inteligente que o “humor inteligente”; Millôr é das raras
exceções). E, além de escrever, desenha cada vez melhor: teria
reconhecimento mundial como alguém no nível de James Thurber ou Saul
Steinberg se tivesse nascido falando a língua do imperialismo ianque.
Claro,
não é uma unanimidade; nem Machado de Assis o é (Millôr não gostava do
Bruxo do Cosme Velho, o que na igreja de Ruy Goiaba conta como heresia).
Aqui mesmo, nesta edição da Crusoé, meu amigo Alexandre Soares Silva
escreve sobre o sono que algumas frases do guru provocam nele até hoje.
Os exemplos pinçados pelo Alexandre são bons, mas confesso que ainda
gosto de coisas como “Brasil, país do faturo”. Ou daquela definição dele
para o comunismo (“uma espécie de alfaiate que, quando a roupa não fica
boa, faz alterações no cliente”).
E
gosto sobretudo daquela frase que já repeti tantas vezes aqui, e outros
já repetiram tantas outras vezes, que se tornou quase um truísmo:
“imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Hoje tem
gente muito incomodadinha com o que considera abuso dessa citação.
Explica-se: a frase fazia sentido no Pasquim, como resposta aos feios,
sujos e malvados da ditadura militar, mas não agora que vivemos nesta
esplendorosa democracia governada pelo Deus Sol. Pois ela continua
verdadeiríssima — neste governo, nos anteriores e nos que estão por vir.
Lamento dizer a alguns coleguinhas que não dá para manter a
credibilidade profissional e, ao mesmo tempo, ser capacho do Lula (ou do
Bolsonaro, ou de qualquer político): vocês continuarão sendo aquilo em
que o cliente limpa seus sapatos antes de entrar no armazém. Um viva
para o Millôr.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Tenho
certeza de que esse pessoal da Polícia Federal deflagrou a Operação
Lucas 12:2 na manhã da sexta passada (11) só para me sacanear e impedir
que o esquema muambeiro e pé de chinelo da turma de Jair Bolsonaro fosse
a goiabice daquela semana, já que fecho a coluna às quintas (é claro
que eles sabiam, a PF sabe de TUDO). Como já se passou quase uma semana
da operação, o troféu fica agora com o lombrosiano Frederick Wassef
(foto), que primeiro não tinha nada a ver com o Rolex ganho de presente
por Bolsonaro e vendido ilegalmente por Mauro Cid nos EUA; depois jurou
ter recomprado o relógio com o dinheiro dele, em cash, sem que o
ex-presidente soubesse de nada. Muitíssimo convincente. Talvez haja boas
razões para o advogado estar sendo chamado de “Wasséfalo”.

Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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