BLOG ORLANDO TAMBOSI
Vivemos em plena cruzada pagã. “Salvar o planeta” tornou-se a password para controlar as vidas dos outros, impor o estatismo e, em Portugal, levar Guterres, o beato dos apocalipses, a Belém. Helena Matos para o Observador:
Quando
fui para férias, o esvaziar os pneus dos carros alheios estava ao nível
do gesto para salvar o planeta. Nos textos da nova catequese que está
por todo o lado avisavam-nos que não devemos andar de carro ou em carros
grandes, por causa do planeta obviamente. Também nos diziam que não devíamos lavar tantas vezes a roupa
ou, numa versão mais aprofundada, nem sequer lavar a roupa. Não
satisfeitos com a imposição do mau cheiro por decreto – mais a mais se
trocarmos o carro pela bicicleta! – logo surgiam outros a defender que
também não se deve comprar tanta roupa (não nos desse a ideia de ir
substituindo a roupa suja por outra lavadinha porque acabadinha de
comprar) e, por fim mas não por último, que também não se devem tomar
tantos banhos. O simples facto de existirmos ou termos filhos gera eco-ansiedade.
Quando
regresso de férias dou de caras com a personagem activista climático,
com penteado a condizer, a arengar nas televisões e rádios socialismo em
nome da crise climática: “É
urgente, por um lado, cortar emissões e combater a crise climática, a
crise das petrolíferas, a crise dos transportes e por outro lado gerir
os recursos tendo em vista o bem comum e os direitos das pessoas“.
E
assim, de crise em crise, vão impondo a sua agenda. Mas não só. O
activista em questão, de seu nome Noah Zino, avisa ainda que um novo
aeroporto não faz falta alguma por causa da crise climática e explica
que “entendemos que é preciso uma acção muito mais directa e muito mais
contundente nos problemas que são os problema do dia a dia das
pessoas”. A acção, muito mais directa e muito mais contundente,
tinha-se traduzido pela vandalização de um campo de golf por parte de
alguns auto-denominados activistas climáticos. Por causa da crise
climática, claro.
Num
verdadeiro espírito de cruzada, o absurdo socialista e a prepotência
passam a inquestionáveis se forem apresentados como um gesto para salvar
o planeta e resolver a crise: podem vandalizar-se campos de golfe em
Portugal e pomares em França ou transformar a vida dos outros num inferno em Berlim ou Londres em acções contra o trânsito.
No limite tolera-se que se ache excessiva esta forma de salvar o
planeta mas não é suposto que não participemos neste neopaganismo que se
infiltrou no nosso dia a dia. O paganismo tornou-se na religião de
Estado no Ocidente no momento em que os estados procuram cada vez mais
expurgar os símbolos religiosos dos espaços públicos: banem-se os
presépios das mesmas praças em que se montam árvores cobertas por
milhares de luzes. Deus tornou-se um assunto privado, enquanto o culto
da Natureza se fez público.
Do
ponto de vista da condição humana esta troca não é irrelevante: séculos
e séculos de dor, estudo e História adequaram no cristianismo a fé em
Deus às circunstâncias humanas. Já a comunhão com a Natureza faz-nos
recuar do paradigma do pecado – que nos tornámos livres de cometer –
para o campo da conspurcação: não somos pecadores mas sim conspurcadores
dessa entidade-equilíbrio chamada Natureza e temos de nos sacrificar
para a apaziguar. Sim, sacrificar.
O
que se esperava fosse resolvido por mais investigação e progresso
tornou-se num caminho de abdicação. Estamos rodeados por pessoas que
deixaram de… Uns deixaram de comer carne. Outros de viajar de avião.
Outros de comer não sei o quê porque tem óleo de palma. Outros de usar
sapatos de pele… Sempre em nome da salvação do planeta.
Estava
eu a prepara-me para terminar este texto, remetendo para aquele momento
em que os gregos sacrificaram Ifigénia para desse modo acalmarem a
deusa Artemisa que lhes negava os ventos indispensáveis à navegação da
sua esquadra até Tróia, quando, vindo sei lá eu donde, me entra pelo
texto adentro, com notável estardalhaço, o engenheiro Guterres mais as
suas calças molhadas até ao joelho. Sim, de repente, aquele título “António Guterres lidera sondagem para eleições presidenciais”
que me tinha parecido um enigma tornou-se subitamente claro. Faz
sentido: Guterres, o beato católico, que nos deixou para fugir do
pântano, volta agora como possível candidato presidencial igualmente
beato mas com o clima a preencher o imaginário apocalíptico que se
apoderou dele no dia em que desistiu de governar Portugal: “Estamos numa auto-estrada para o inferno, com o pé no acelerador”, disse no seu discurso na abertura da cimeira de implementação da COP27; “Estamos todos condenados“: o alerta de Guterres sobre a necessidade de um acordo climático; Humanidade enfrenta “suicídio coletivo” devido à crise climática, avisa António Guterres … Todos os dias Gueterres alerta para um desastre.
Sim,
é verdade. Depois de Marcelo, da falácia da política dos afectos e da
sua absoluta falta de noção sobre o que é o papel do PR (os comentários feitos pelo Presidente aos partidos que recebe em Belém não são admissíveis em circunstância alguma)
podemos vir a ter, em Belém, Guterres, o beato dos apocalipses, agora
climáticos. Marcelo tinha sempre uma selfie para fazer. Guterres terá
sempre um desastre para anunciar. O objectivo é o mesmo: ficarem bem na
fotografia.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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