As religiões tradicionais não são atavismo nem retrocesso, mas tão parte do mundo de hoje e do mundo de amanhã como a ciência e a tecnologia. Rui Ramos para o Observador:
Vivemos
numa época em que muita coisa está trocada. Os crentes são hoje
geralmente delicados e tolerantes. Parecem visitas numa casa que não é
deles. Para ver soberba e intolerância, é preciso ir para junto dos
descrentes. Aí, há muita gente que se porta como se fosse dona de tudo. É
aí que estão hoje os que não compreendem nem estão dispostos a aceitar
nada. Percebe-se porquê. Para os crentes, a providência divina é um
mistério: as coisas nem sempre têm de acontecer conforme esperam. O tipo
de descrente de que falo, pelo contrário, julga que sabe o sentido da
história: não está preparado para surpresas. Foi por isso que a JMJ o
indignou tanto: nada, para ele, faz sentido.
Não,
não foi a colaboração do Estado num evento da Igreja Católica que
escandalizou os acólitos da descrença arrogante. É verdade que
questionaram essa colaboração, e até se puseram, muito neo-liberalmente,
a discutir orçamentos. Mas o problema não foi esse. O problema foi que a
multidão era grande, e que a gente era muito nova. Os descrentes não
contavam com isso. Desde pequenos, ensinaram-lhes que o cristianismo era
um resquício da Idade Média, prestes a acabar. Logo, nenhum evento
cristão deveria atrair mais do que umas poucas de velhas camponesas de
regiões remotas. Mas eis que centenas de milhares de jovens, com um ar
muito contemporâneo, ocupam o centro de Lisboa para ouvir missa e ver o
Papa. Não é possível. Não vem no guião. Não pode estar a acontecer.
Pobres
descrentes arrogantes. De facto, são eles o resquício de um tempo velho
que talvez esteja a acabar. Esse tempo era o da superstição do
progresso. Os seus profetas, no século XIX, acreditaram que a ciência
moderna ia substituir as religiões tradicionais. O que fizeram foi
atribuir às teorias e hipóteses científicas a mesma certeza dogmática
das antigas revelações divinas. Não deram origem a boa ciência, mas
inspiraram ideologias pretensamente “científicas”, e que em nome da
“ciência” reprimiram, prenderam e massacraram. A intolerância ideológica
do século XX, com os seus meios industriais de morte, foi mais
sanguinária do que qualquer intolerância religiosa do passado.
A
verdade é que religiões como o cristianismo não traduziam simplesmente a
ignorância de tempos antigos. As religiões eram, para os fiéis, formas
de saber viver e sobretudo de saber morrer, sistemas de cerimónias e
rituais destinados a fazer grupos e indivíduos transcender as suas
existências. Era isso que as religiões eram, e é isso que as religiões
são, porque nada de facto as substituiu nesse sentido, a não ser
ideologias e superstições. Se os descrentes percebessem isso, não
estariam tão espantados com a JMJ, e talvez se habituassem à ideia de
que as religiões tradicionais não são atavismos nem retrocessos, mas tão
parte do mundo de hoje e de amanhã como a ciência e a tecnologia.
Durante
muito tempo, os Estados apropriaram-se das religiões para legitimar a
sujeição aos governos e a aceitação das hierarquias. Foram os Estados
que transformaram o cristianismo em opressão. As Inquisições ibéricas do
século XVI, de que ainda se culpa a Igreja Católica, funcionaram de
facto como instrumentos do Estado para obter uma homogeneidade
confessional que o Estado julgou indispensável a fim de assentar a ordem
política. Isso acabou na Europa entre os séculos XIX e XX, e quando
acabou, as sociedades tornaram-se plurais, mas o cristianismo não
desapareceu. Deixou de ser imposto a todos, mas passou a ser escolhido
por muitos, como fé e “identidade”. As igrejas, finalmente autónomas em
relação ao Estado, puderam reconstituir-se como congregações livres. Foi
essa liberdade que passou por Lisboa.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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