A educação formal e a educação em sentido lato são coisas diferentes, e as duas não andam sempre juntas. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
O último texto
fez chover comentários, então vale nos alongarmos no assunto. Comecemos
por um esclarecimento sobre algoritmos. Muita gente não entendeu que
treinou o próprio algoritmo. Assim, proponho que façam um teste: abram o
computador, baixem outro navegador e acessem o Youtube sem fazer o
login na sua conta Google. O que aparece na tela?
Como
eu tenho o hábito de usar o Youtube sem fazer o login, cada vez que
formato o computador o algoritmo está virgem. Tive que fazer isto no
penúltimo fim de semana e uma das recomendações que me aparecia é
"Nadson, o Ferinha", um cantor sergipano de arrocha que tem feito muito
sucesso na minha região. Outra coisa que aparece muito quando formato o
computador é música evangélica; de fato, há muito evangélico pela área.
Pelo visto, na falta de informações sobre o meu gosto e a minha
identidade, o algoritmo do Youtube segue um critério geográfico e aposta
que vou gostar das mesmas coisas que os demais habitantes do Recôncavo
baiano.
Mas
desta vez aparecia um troço meio noir escrito "Antipatriota". Chamou a
minha atenção, mas não cliquei. Esta semana descubro que é um
pseudo-humorista pardo chamado Tiago dos Santos,
que adota um sobrenome italiano com grafia errada, e cujo suposto humor
consiste em simular a tortura e morte de pessoas como Luciano Hang e
Monark. Ele virou notícia porque descobriram o seu passado de apologista
da violência pela violência, bem como de tuítes que manifestavam ódio
racial contra pretos e judeus. Um nazipardo que descobriu a violência é
socialmente aceita na esquerda e foi para lá? Bom, essa recomendação é
estranha, já que os meus vizinhos arrocheiros e crentes só sabem por
alto da existência de Luciano Hang graças ao Jornal Nacional, e Monark
para eles é a bicicleta. Assim, eu suspeito de que o algoritmo do
Youtube faça propaganda desse cara.
Vocês
não sabem como se comporta um algoritmo virgem e eu estou dando uma
ideia porque faço o teste com alguma frequência. Como o algoritmo se
comporta após aprender que está lidando com um menor? Não faço ideia,
nem pretendo fazer experimentação em humanos para descobrir. O que eu
sei é que, se o menor manifestar interesse por autolesão, anorexia e
suicídio, o algoritmo vai oferecer mais e reforçar esse interesse — vide o caso da finada Molly Russell. Ou, mais impressionante ainda, vide essa influencer anoréxica com 2,1 milhões de seguidores no Youtube.
Seja
como for, o que vale para doenças psiquiátricas vale para música: o
algoritmo reforça aquilo que você já conhece e de que já gosta. Não
serve para expandir os horizontes musicais de ninguém. Por isso, fiquei
contente com a novidade que a minha amiga de TI me contou depois de ler o
meu texto: já existe plataforma de streaming com curadoria humana.
Holandeses apreciadores de música clássica criaram um serviço de
streaming chamado "Primephonic", específico para o gênero. A Apple
comprou em agosto 2021, tirou-o do ar já em setembro e relançou-o com
outro nome em março deste ano. Chama-se "Apple Music Classical", que
fica à parte do streaming normal da Apple, o Apple Music. Mas quem não
quiser dar dinheiro para a Apple pode ouvir web-rádios de música
clássica do mundo inteiro, como esta, suíça.
Do rádio ao streaming, portanto, a curadoria faz parte da fruição
musical de qualidade. A automação desse âmbito não é boa coisa.
Assim,
meu último artigo insistiu na educação do gosto musical das novas
gerações, que, diferentemente de nós, estão sujeitas aos algoritmos
antes de amadurecerem. Disso muitos leitores depreenderam que eu estava
discutindo ensino formal. Assim, precisaríamos ter o PISA da Coreia do
Sul antes de termos uma cultura musical decente. Ora, a educação formal e
a educação em sentido lato são coisas diferentes, e as duas não andam
sempre juntas. Um camponês da Idade Média era analfabeto e tinha uma
sensibilidade musical melhor do que a de um cocainômano diplomado fã de
música eletrônica. Cartola era pedreiro, mas compunha poesias melhor do
que os engenheiros. Eu tenho doutorado, mas não tenho a menor pretensão
de saber musicar melhor do que Luiz Gonzaga. Aliás, nada mais favorável
ao hábito de versejar do que o analfabetismo, já que a métrica serve
para ajudar a memória a guardar um texto que será repetido para os
outros. Ao analfabeto convêm as habilidades de repentista.
A
Coreia do Sul deu um salto de desenvolvimento que passou pela
escolarização de suas massas. O gênero musical que a Coreia criou depois
desse fabuloso aumento da educação formal foi o... k-pop. Alguém em sã
consciência dirá que o k-pop é mais refinado que o chorinho? No entanto,
o analfabetismo grassava no Brasil durante o Segundo Reinado e a
República Velha, épocas em que o chorinho surgiu e se desenvolveu.
Certamente
a escola pode fazer algo pela cultura musical das crianças, mas eu me
referia mais à educação doméstica. Lembrei-me de, criança, ter ficado
frustradíssima quando soube que um outro grupo estudaria "Carinhoso" na
aula de música, e eu teria de me contentar com "A Banda" (que eu não
conhecia). É claro que a escola fez bem em dar Pixinguinha para as
crianças estudarem: melhora a sensibilidade musical e, coisa nada
desimportante, aumenta o vocabulário. Mas me pareceu improvável que uma
criança de hoje tivesse a mesma frustração que eu, porque me parece
improvável que uma criança de hoje sequer conheça "Carinhoso". Hoje os
pais, bem escolarizados, botam "A Galinha Pintadinha" no Youtube e
dão-se por satisfeitos. Não cantam mais; quem canta é o computador, que
canta sempre o mesmo. Numa gravação,
Paulinho da Viola comenta que até o final do século passado "Carinhoso"
era universalmente conhecida pelos brasileiros. Independentemente da
idade, todos sabiam cantarolá-la.
Isso
era outro ambiente social — a casa, os vizinhos, os colegas de escola
—, não o resultado objetivo da educação formal. Nesse outro ambiente,
exibir a bunda não era um jeito bonito de se destacar. Hoje, é. Em todas
as classes sociais. Não sei a razão exata da decadência cultural. Mas
sei que escolaridade e decoro não andam sempre de mãos dadas. Posso
apostar que uma idosa analfabeta tem muito mais decoro do que uma jovem
rica que estudou em escola cara e hoje ostenta no Instagram, junto com
outras partes do corpo, a cara deformada por "harmonização facial".
Aposto também que a idosa analfabeta sabe cantarolar "Carinhoso"; já a
patricinha, tenho minhas dúvidas. Talvez isso tudo seja resultado da tão
falada crise de valores, de achar que ser bem sucedido é ser rico.
Dinheiro deve ser um meio de conseguir as certas coisas. Quem não sabe o
que é bom ou ruim não tem muito o que fazer da vida, com ou sem
dinheiro. Aí fica ostentando bobagem em rede social, desnorteado.
Vamos
então ao último esclarecimento. Certamente existem amantes da música
clássica dispostos a desembolsar grandes somas para assistir a
concertos. Além disso, mecenas podem fazer grandes doações a orquestras
(que em geral são abatidas no imposto, em vários países do mundo). Mas o
fato de haver um nicho não basta para viabilizar um gênero musical
seguindo as leis de mercado. Se todas as orquestras perdessem o
financiamento estatal (inclusive o da isenção fiscal), quantas
orquestras o público de melômanos conseguiria bancar? Seria preciso uma
cidade bem grande para ter um número significativo de melômanos
endinheirados para ter uma única orquestra capaz de tocar uma sinfonia,
com ingressos bem caros vendidos a um público extremamente assíduo.
Quanto à possibilidade do lucro dos produtores, sou bem cética, para
dizer o mínimo. Orquestra sinfônica não atrai quem quer ganhar dinheiro e
ficar rico. Atrai quem quer estabilidade para se dedicar à música, e
ninguém jamais dedicaria anos de estudo a instrumentos clássicos se
tivesse que agradar ao mercado.
A
música clássica fornece mais outro exemplo do desatrelamento entre a
riqueza de um país e o seu refinamento cultural. Podemos colocar o seu
pináculo facilmente no Sacro Império Romano Germânico do séc. XVIII, no
qual viveram Bach (1685 - 1750), Mozart (1756 - 1791) e Beethoven (1770 -
1827). Nesse período, a potência em ascensão era a Inglaterra, que
estava se industrializando e modernizando a produção material. Pois bem:
que fez a Inglaterra na seara da música clássica?
A
música clássica foi um feito dos países atrasados e perdedores na
Europa. As grandes potências que começavam a decair eram Espanha e
Portugal; Inglaterra e Holanda ascendiam. Os corpos políticos feudais
que hoje correspondem aos países germânicos e à Itália, juntos à
atrasada França camponesa, foram a chave da música clássica. E depois de
os germânicos, franceses e italianos se industrializarem, a tocha da
música clássica foi para a atrasada Rússia do czar — a qual, ao virar
comunista, manteve o Bolshoi e vetou todo tipo de pop music. E lembremos
que o funk não é brasileiro; é um estilo musical criado nos EUA com o
nome de Miami bass. Sempre foi música pornográfica para bandidos, e as
tentativas brasileiras de transformá-lo num gênero romântico (vide
Claudinho e Bochecha) não frutificaram.
Onde
impera o mercado, o critério para diferenciar bons músicos de maus
músicos é o dinheiro. Uma orquestra é um absurdo: tem músico demais para
pagar, não se custeia com bilheteria e a mão de obra é de formação
muito lenta. Já o funk é bom, porque bastam uma periguete seminua e uma
batida gerada pelo computador. Surpreende que o mercado mate a boa
música e fomente a má?

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