Os deuses, os valores, os comportamentos e os afetos vão sendo criados ao sabor do acaso histórico das sociedades. Luiz Felipe Pondé via FSP:
O
filósofo britânico A.N. Whitehead (1861-1947) suspeitava de que os
avanços numa civilização são processos que podem destruir as
civilizações em que eles se instalam.
Estaríamos diante de um efeito colateral indesejável dos avanços nas civilizações?
A
verdade é que suspeitas como essas podem ser colocadas diante da crença
ingênua de que, se entendermos racionalmente as coisas —supondo que
isso seja compreendê-las nas suas relações causais na realidade—,
saberemos como "fazê-las melhor".
Descobrimos
que existem componentes sociais e históricos na identidade sexual
—exemplo de avanço no entendimento da realidade— e daí concluímos que
sabemos como manipular tais componentes e organizá-los melhor do que
estavam organizados até então.
Descobrimos
que há furos na fundamentação das crenças religiosas —outro exemplo de
avanço no entendimento da realidade— e daí concluímos que destruindo a
religião faremos pessoas mais felizes e melhores.
Inventamos
a ciência moderna —outro exemplo de avanço no entendimento da
realidade— e daí concluímos que cientistas são pessoas mais inteligentes
e livres de viés cognitivo como outros mortais.
Mergulhemos
mais fundo na história. A filosofia foi inventada na Grécia antiga
—grosso modo, a partir do século 5 a.C.—, daí concluímos que esse fato
fez bem para Grécia de então e produziu um melhor entendimento da
realidade e melhores ações nos gregos a partir de então.
Não parece ser a opinião de Gilbert Murray (1866-1957), historiador da religião e literatura grega antiga.
Murray tem um conceito que me parece muito operacional para explicar
por que experimentos como a modernidade ou a pós-modernidade não dão tão
certo quanto seus adeptos imaginam que dão —ou mesmo eventos como a
democracia, o teatro grego e a filosofia não implicaram em nenhum grande
"avanço" na vida grega antiga. Vejamos.
Na
sua obra "Five Stages of Greek Religion" (cinco estágios da religião
grega), Murray descreve o processo contínuo e cheio de rupturas da
religião grega antiga mostrando que, ao longo dos séculos, a religião
grega foi se desfazendo e refazendo num processo não passível de ser
reproduzido racionalmente nem repetido intencionalmente.
Eis
o "conglomerado herdado" que caracteriza toda forma de ancestralidade
cultural —e por cultural aqui conta-se moral, religião, política,
sociedade. O termo nos leva à ideia de tempo geológico para significar
que processos de constituição de conglomerados culturais herdados levam
milênios para se dar e nunca terminam de se constituir. E mais: ninguém
sabe sua chave de funcionamento, porque ela não existe.
Por
isso que quando acreditamos que estamos num processo de destruição de
crenças, superstições, preconceitos e obsessões coletivas para
reconstruir racionalmente uma cultura damos com os burros n’água, como a
crença moderna no progresso do mundo.
O
aluno de Murray, E.R. Dodds (1893-1979) suspeitava de que o surgimento
da filosofia grega foi um caso como esse. Começando a corroer o
conglomerado herdado do ancestral grego —a religião, a moral, os
costumes, as crenças, os sonhos—, a filosofia racionalista grega não
conseguiu colocar "nada no lugar".
Em
momentos de grandiosidade de uma civilização, seus habitantes podem
experimentar a desmedida de crer que podem construir conglomerados
herdados ao sabor dos seus gostos.
Nestes
gostos de hoje estão os delírios de uma espiritualidade de consumo que
brinca de remendar o conglomerado antigo-medieval destruído pela
experiência moderna.
As
sociedades não se constituem a partir de processos de engenharia
social. Um conglomerado herdado é uma montanha de camadas que se
superpõe em tempo geológico sem que ninguém tenha a capacidade de saber
como se deu. Os deuses, os valores, os comportamentos, os afetos vão
sendo "criados" ao sabor do acaso histórico das sociedades e em cada
época eles parecem ser obviamente coerentes e reais para as pessoas
habitantes de cada época.
Não temos a mínima ideia de como chegamos a acreditar no que acreditamos nem valorizar o que valorizamos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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