Se existe uma coisa que deveria estar acima de qualquer picuinha política, é a preservação do patrimônio cultural. Não há qualificativos publicáveis para um secretário da Cultura que levante obstáculos à reabertura do Museu do Ipiranga. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Eu
não gosto de Paulo Coelho. Acho que as únicas coisas interessantes
feitas por ele são em coautoria com Raul Seixas. Eu poderia fazer um
texto sobre minhas opiniões relativas a Paulo Coelho, mas elas teriam
que ser interessantes e fundamentadas. É meu trabalho fazer textos,
tenho liberdade para escolher temas e o leitor sabe disto. Por isso
seria razoável escrever para vocês sobre Paulo Coelho. Se eu fosse fazer
um texto sobre esse escritor do qual não gosto nem um pouco, levaria em
conta que falar mal de Paulo Coelho é esporte nacional, e que ele faz
muito sucesso no exterior. Eu não iria simplesmente despejar lugares
comuns na cara do leitor. Acho que eu faria um texto dizendo que somos
mesmo o melhor país do mundo, já que sabemos que Machado de Assis é
infinitamente superior a Paulo Coelho, enquanto o resto do planeta mal
sabe quem é Machado de Assis.
Fico
aqui pensando em que voltas eu daria para trabalhar a minha opinião
banal sobre Paulo Coelho e transformá-la num texto. A dupla Frias &
Porciuncula, porém, não faz textos: faz tuítes. Tuítam suas opiniões
banais que, por serem banais, encontram muita gente que concorda com
elas. E como, nestes tempos de crise de saúde mental, as pessoas estão
se avaliando umas às outras apenas com base em opiniões emitidas,
desdenhando solenemente de ações feitas, a dupla Frias & Porciuncula
encontra uma montanha de apoiadores bolsonaristas nas redes sociais.
Animais racionais demissionários
Digam
se não é tudo assim, para muita gente hoje: eu vou ao Twitter e digito
as opiniões corretas; vou aos grupos de WhatsApp e idem; vou (se não
ficar em casa) à reunião de amigos e emito as opiniões corretas. Assim
sou aceita pelos meus pares e fica tudo bem. Mas se eu digitar ou emitir
uma opinião incorreta, aí a casa cai – eu sou uma má pessoa!
Então
um certo conjunto de seres humanos, notadamente na classe média (que é
sempre mais ideologizada) acaba parecendo umas aves grasnando, em vez de
animais racionais. Porque há um estoque limitado de opiniões corretas,
que são repetidas sem pensar. No fim é tudo som, seja o da voz emitida
pela boca ou das letras, pensados pela cabeça que lê. Quem vive assim é
um animal racional demissionário: desistiu de pensar e agora quer só
grasnar. Com “Bolsonaro genocida!”, em geral não se quer dizer nada;
quer-se somente grasnar para atrair a turma certa e repelir pessoas
erradas.
Eu
tenho certeza de que progressistas têm essa mente que se demitiu da
racionalidade e agora fica assim, grasnando as palavras e opiniões
corretas. Mas dado que é uma estrutura mental, seria precipitado dizer
que ela se restrinja a um grupo político.
A
permanência de Frias e Porciuncula nos cargos de Secretário Especial da
Cultura e Secretário Nacional de Incentivo e Fomento à Cultura mostram
isto muito bem. Até o começo do governo Bolsonaro, os grasnados de
direita diziam que “Olavo tem razão” e que os artistas são “mamadores da
Rouanet”. É possível defender ambas as afirmativas fazendo uso da
razão. Mas, como Olavo de Carvalho era um culturalista que defendia o
valor intrínseco da arte, o mínimo do mínimo seria dizer que tais e tais
artistas são uns mamadores da Rouanet. Não dá para desrespeitar a
profissão dos artistas e querer que a alta cultura seja preservada.
Porciuncula,
em um dos seus incontáveis tuítes, já se gabou de a cultura não ser uma
profissão para ele. Não sei que arte ele produz. Sei que só na cabeça
de Marx o homem um dia vai ser operário de fábrica de dia e crítico
literário à noite, sem profissionalização. Na Antiguidade, na Idade
Média, existiam as profissões de músico e de artesão. Como Porciuncula,
que tem a experiência de capitão da PM, acha que é uma orquestra
sinfônica? Um grupo de amigos que se reúne em final de semana?
Essas
figuras chegaram ao cargo por grasnarem as coisas corretas. Enquanto
escrevo estas linhas, Porciuncula está no Twitter dizendo não só que
Paulo Coelho escreve frase de para-choque de caminhão, mas que é
maconheiro e até plagiário. Que ganha com isso o Brasil? Essa não é uma
pergunta que os grasnadores façam. O negócio é grasnar.
O que eles fazem?
Gente
de cabeça sadia deveria perguntar o que fazem Frias e Porciuncula.
Nesta coluna, tenho feito coro a Josias Teófilo no que concerne à inação
da dupla. Até onde eu saiba, foi ele quem primeiro denunciou a ausência
de planos para a comemoração do Bicentenário da Independência. Os
patriotas deveríamos levar as mãos aos céus por termos posto na
presidência da República em 2022 alguém que fala bem do próprio país. Se
fosse Haddad, aposto que em 2022 veríamos uma Anticomemoração
Antinacional que só iria falar mal do Brasil, dizendo que aqui só tem
escravo, espancador de mulher, matador de LGBTQUIABO e incendiário de
florestas. Seríamos apresentados como um Vitimistão que precisa de cota
para tudo. Quiçá a Independência foi mais uma opressão engendrada pela
masculinidade tóxica e nós não devêssemos entregar nossa soberania a
Macron, que é bonzinho e vai saber dar amor às girafas chamuscadas da
Amazônia.
Por
isso mesmo é que os artistas de esquerda não tocam no assunto do
Bicentenário, e coube a um artista de direita, pessoalmente próximo de
Olavo de Carvalho, chamar atenção à inação dos tuiteiros que ora tomam
conta da Cultura (agorinha mesmo, enquanto escrevo, Porciuncula xinga
Josias de vagabundo e maconheiro). Graças a essa inação, é bem possível
que tenhamos Anticomemorações Antinacionais em estados e municípios
feitas com dinheiro federal, já que Frias e Porciuncula pegaram um
projeto de lei de Jandira Feghali e o usaram para socorrer os artistas
na pandemia.
Se
é verdade que as eleições nos pouparam desse espetáculo no plano
federal, nenhum bem foi promovido pelo próprio governo federal. Em meio a
uma chuvarada de artigos em diversos jornais que seguiram a toada de
Josias Teófilo, a dupla de tuiteiros veio a público em julho dizer que
naquela semana mesmo iria apresentar algo. Não apresentaram projeto
nenhum.
Mas
se a dupla fica no Twitter chamando Paulo Coelho de maconheiro está
tudo bem? Só na cabeça de doente mental, que não enxerga a importância
de ações.
Picuinha contra o Museu do Ipiranga
Enquanto
isso, quem tem projeto é Doria. O governo de São Paulo captou recursos
via Lei Rouanet e iniciativa privada para restaurar o Museu do Ipiranga
(por aí já se vê que não, a Rouanet não serve só para astros da MPB, e
às vezes é só uma complementação do total de recursos). É uma vergonha
esse museu estar há tanto tempo fechado, e que bom que Doria vai
reabri-lo. O brado foi dado em São Paulo, é bom que o governo de lá não
deixe a data passar em branco. Qual a conduta de Frias frente a isso?
Esculachar a reabertura do museu e dizer que não vai deixar reinaugurar,
não.
Se
existe uma coisa que deveria estar acima de qualquer picuinha política,
é a preservação do patrimônio cultural. Não há qualificativos
publicáveis para um secretário da Cultura que levante obstáculos à
reabertura do Museu do Ipiranga.
É
uma vergonha que os encarregados da política cultural federal só
apareçam por causa de barraco no Twitter. Isso é um sintoma de corrupção
moral, de falta de discernimento. Afinal, ações importam mais do que
ruído de Twitter.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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