A ala econômica do governo, empenhada em devolver racionalidade ao gasto público, está em colisão constante com a ala política, que segue acreditando firmemente que os recursos públicos são infinitos. Editorial da Gazeta do Povo:
Interlocutores
do governo minimizam, afirmam que já estava tudo acertado, que Paulo
Guedes aceitou, e que no fim todos – até o próprio ministro da Economia –
irão ganhar com isso. Mas não há como negar que a nova divisão de
responsabilidades sacramentada em decreto pelo presidente Jair Bolsonaro
dá ao Centrão, representado por Ciro Nogueira, ministro-chefe da Casa
Civil, um poder inédito na administração do Orçamento da União. Uma
fonte ouvida pela Gazeta do Povo diz que “o decreto não entrega a chave
do cofre da União para o Ciro”, mas outro entrevistado afirma: “Ele
[Ciro] fica com a caneta na mão” – e, no fim das contas, é a caneta que
abre o cofre.
O
Decreto 10.937/22, publicado na quinta-feira, segue uma praxe: todo
ano, o presidente da República estabelece as competências da equipe
econômica na administração do orçamento. Na versão mais recente, há dez
itens, que incluem remanejamento orçamentário, abertura ou reabertura de
créditos extraordinários, abertura de créditos especiais e alteração de
despesas. A novidade está no parágrafo único do artigo 1.º: “A prática
dos atos de que trata o caput está condicionada à manifestação prévia
favorável do ministro de Estado chefe da Casa Civil da Presidência da
República”. Em outras palavras, nada do que o decreto delega ao
Ministério da Economia acontecerá sem o aval de Ciro Nogueira. É algo
que jamais foi feito desde a redemocratização.
Tudo
em nome da famosa “governabilidade”, entendida como o esforço de manter
satisfeitos os parlamentares que votarão temas de interesse do governo
em 2022. O decreto garante que o Ministério da Economia não terá mais
como barrar, por exemplo, a execução de emendas parlamentares,
inviabilizando acordos feitos entre o governo e sua base. “É uma decisão
para organizar o governo de forma que possamos cumprir o que
combinamos”, diz um dos interlocutores do Planalto ouvidos pela Gazeta –
ainda que o combinado seja avançar sobre o dinheiro do contribuinte sem
a menor consideração pela responsabilidade fiscal ou com a arrumação da
economia, como tem ocorrido com as famosas “emendas de relator”.
Afinal,
é disso que se trata: a ala econômica do governo, empenhada em devolver
racionalidade ao gasto público especialmente depois de ter empenhado
centenas de bilhões de reais no combate aos efeitos econômicos da
pandemia, está em colisão constante com a ala política, que segue
acreditando firmemente que os recursos públicos são infinitos e existem
não para servir ao público, mas aos próprios interesses. Nesse embate, a
equipe econômica tem sido vencida com enorme frequência, e a saída de
inúmeros secretários e assessores importantes de Guedes demonstra a
frustração de cabeças talentosas com as decisões tomadas em Brasília,
ainda que o ministro siga no cargo, adaptando seu discurso e
relativizando cada derrota.
Cada
vez mais fica evidente que há duas “agendas liberais” dentro do governo
federal, uma que caminha e outra que está travada. De um lado, há
esforços de desburocratização, desregulamentação e valorização da
iniciativa privada; com exceção das privatizações, que apenas
engatinham, estes objetivos vêm sendo cumpridos – aqui se incluem marcos
legais como os do saneamento, das ferrovias e do câmbio, a Lei de
Liberdade Econômica e as concessões de infraestrutura. Já o ajuste
fiscal e a racionalização do gasto público com o enxugamento do Estado
se tornaram um sonho cada vez mais distante, à medida que as reformas
estruturantes são dadas como impossíveis em 2022, substituídas pela
erosão do teto de gastos, pelo aumento das despesas – inclusive com as
emendas de relator e imoralidades como o fundão eleitoral – e, agora,
pela entrega da execução do orçamento ao Centrão.
BLOG ORLANO TAMBOSI
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