Ao ler a obra de Boldizzoni lembrei-me de meu passeio pelo shopping. Naquele dia descobri que o capitalismo é mais inteligente, ágil e flexível do que as projeções sobre sua queda e seus costumeiros críticos são capazes de ser. Vinícius Müller para o Estado da Arte:
Há
muito anos, em uma passagem caricatural de minha formação, estava por
contingências da época passeando por um shopping center em São Paulo.
Era, então, um estudante de História que, no auge de minhas duas décadas
de vida, estava convencido de que visitar um lugar tão ‘capitalista’
era uma grave traição às minhas profundas convicções de que o
‘capitalismo’ era a fonte de nossos maiores problemas, assim como à
minha crença de que estávamos, eu e meia dúzia de colegas da faculdade,
muito próximos da revolução que acabaria com nosso sofrimento. Entendi,
ou tentei me convencer, de que minha visita ao templo do consumo me
serviria como aprendizado sobre o inimigo. E assim me mantive, com a
presunçosa expressão de quem conhece a História e prevê o futuro,
posando de rebelde ante as vitrines cujo objetivo era, para mim, sugar o
meu sangue.
Contudo,
em uma das paradas que fiz para melhor observar o inimigo em seu pleno
funcionamento, dei-me conta de que uma das vitrines, certamente de algum
estabelecimento com presença frequente na imaginação dos bem nascidos e
nas revistas que determinam a ditadura da moda, tinha como tema de sua
nova coleção nada mais, nada menos, do que Ernesto Che Guevara. E,
assim, fiquei intrigado buscando entender como o símbolo maior de tudo o
que representava meu ódio juvenil ao capitalismo havia se transformado
numa camiseta, vendida por preço tão elevado em um local que tem como
nome o verbo comprar no gerúndio. E fiquei embasbacado, primeiro com o
que avaliei ser o cinismo do capital, mas logo depois com a ingenuidade
minha e de meus seis colegas revolucionários da faculdade que
acreditávamos carregar as soluções para o mundo. Também fiquei
preocupado, pois se os ‘bem nascidos’ podiam ser tão rebeldes como eu
comprando uma camiseta com a estampa do Che Guevara, não me sobraria
nada, nenhuma marca distintiva, nenhum charme. E, no final, nenhuma
razão.
Desde
então, não mais deixei de pensar sobre esta aparente contradição. E
sobre como muitos já haviam tentado me alertar a repeito dela. Desde
artistas da musica pop até autores e autoras supostamente mais
sofisticados, como aqueles ligados à “escola da Frankfurt”. Em ambos,
com reações diferentes. Alguns afirmando que a ‘coisificação’ ou a
transformação de Che Guevara — ou qualquer outro entre tantos e tantos
exemplos possíveis — em mercadoria era a confirmação dos males causados
pelo inimigo capitalista. Outros tantos que entenderam a ingenuidade
daqueles que, como eu e meus colegas da faculdade, acreditavam ser mais
inteligentes do que a economia de mercado. E, no pior dos casos, quando
percebi que muitos dos que entenderam tamanha contradição a usaram de
modo instrumental. Ou seja, transformaram sua falsa rebeldia contra o
capitalismo em fonte de renda, de manutenção do status e da riqueza, e
de acúmulo de capital. Algo tão deplorável quanto aqueles que usam as
liberdades da democracia para atacá-la.
Depois
de tanto tempo, leio a obra do historiador italiano e professor da
Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega, Francesco Boldizzoni;
obra cujo título em sua edição norte-americana é Foretelling the End of
Capitalism: Intellectual Misadventures since Karl Marx (Harvard
University Press, 2020), e que ilumina — e, de certo modo, organiza — a
inquietação que carrego desde a juventude. Nela, o jovem historiador,
autor de outra obra fundamental (The Poverty of Clio. Resurrecting
Economic History, Princeton University Press, 2011), reconstrói a
trajetória das críticas ao capitalismo antes mesmo do sistema ser assim
chamado. E neste caso, não poupa ninguém. De Smith a Marx, de Malthus a
Stuart Mill, de Ricardo a Paul Sweezy, entre tantos outros.

Pela
abrangência, rapidamente notamos que Boldizzoni busca reconstruir não
só uma crítica ao que veio a ser chamado de capitalismo depois que Louis
Blanc e Pierre-Joseph Proudhon cunharam o termo em meados do século
XIX. O que o historiador italiano propõe é quase um contrafactual sobre
os motivos que fizeram com que todas as previsões sobre a derrocada do
sistema capitalista se provassem equivocadas — e porque elas não só se
mostraram equivocadas, como também misturavam a observação com os
desejos daqueles que a formulavam. Neste sentido, as previsões sobre o
fim do capitalismo estiveram mais relacionadas às projeções carregadas
de certa arrogância daqueles que tem, quase que religiosamente, a
convicção de que são capazes de prever o futuro. Mais do que a qualquer
método em tese cientifico.
Não
que as críticas aos resultados visíveis do capitalismo não tivessem
fundamentos ou fossem frutos exclusivos de má vontade. Ao contrário, os
esforços que combinavam a tentativa de formulação de princípios gerais
que, ao mesmo tempo, contemplassem os elementos fundamentais do sistema,
a observação empírica e a projeção de resultados verificáveis no tempo
eram feitos de maneira séria. Os exemplos são muitos e formam a parte
mais sedutora do livro de Boldizzoni. A identificação da contradição
entre a necessidade de ampliação dos lucros e os limites da exploração
do trabalho, da desigualdade persistente em meio à ampliação da riqueza,
dos conflitos entre o aumento da competição e a concentração
monopolista ou do ritmo diferente entre o avanço da tecnologia e o
crescimento do emprego. Todas elas estavam amparadas em dados e em
observações pertinentes sobre a realidade. Por isso serviram de
sustentação às hipóteses e às propostas de intervenção que se mostraram
parcialmente acertadas, desde a crítica marxista ancorada na fotografia
que seus formuladores tiraram em 1848 até a percepção de Stuart Mill
sobre os limites de uma sociedade utilitarista como defendida por
Bentham (inclusive os limites ambientais, tema antecipado na Inglaterra
Vitoriana). Não só: também a percepção de que os ganhos fortemente
concentrados transbordaram de modo a contemplar os trabalhadores e, por
isso, a opção revolucionária contra o capitalismo ganharia uma
concorrente relevante, consubstanciada pela social-democracia e pela
defesa de um capitalismo reformado e carregado de preocupações sociais.
O
problema, já antecipado pela genial Deirdre McCloskey, é o
enrijecimento dos pressupostos sobre o funcionamento do capitalismo e,
principalmente, de seus elementos passíveis de crítica. Por isso, ainda
segundo McCloskey, as projeções sobre sua possível derrocada falham
sistematicamente — ao que, parcialmente, Boldizzoni concorda, não
obstante identificar importantes adaptações feitas pelos críticos.
Principalmente após 1929, tido por muitos, à época, como o exemplo maior
da validade da análise e projeção marxista — mas que, como sabemos,
mostrou-se muito aquém do papel de aceleradora da crise final do
capitalismo. O mesmo vale para a 1973 ou para 2008.
O
que o historiador italiano acertadamente tenta fazer é achar o equívoco
das projeções que determinavam o fim do capitalismo nos itens tidos
como essenciais ao sistema. E, diferentemente de McCloskey, não apontar
para a permanência de um arcabouço teórico que, fundamentalmente, usa de
modo estático e duzentos anos depois a mesma fotografia tirada em 1848
para formular seu entendimento, sua projeção e, consequentemente, sua
crítica ao capitalismo. Boldizzoni, ao contrário, aponta para as
inúmeras adaptações feitas pelos críticos do capitalismo conforme a
História mostrava resultados diferentes. O problema, segundo ele, é que
os elementos apontados como fundamentais pelos críticos do capitalismo
estão, no mínimo, incompletos.
Desta
forma, diz que a combinação entre a manutenção de certa hierarquia
herdada de uma Europa aristocrática e um individualismo forjado pelo
humanismo renascentista e pelos seus herdeiros liberais e iluministas
torna o capitalismo resistente às crises que enfrenta. Como se, entre a
hierarquia e o individualismo, o capitalismo suportasse o peso de suas
crises exatamente porque se movimenta de um lado a outro até que
encontre um novo equilíbrio. Sem romper com suas fronteiras.
O
que Boldizzoni não identifica é que estas fronteiras — a hierarquia e o
individualismo —, mesmo que permaneçam as mesmas, também se movimentam,
criando geometrias variáveis. Por um lado, os novos formatos
resultantes da expansão e contração tanto da hierarquia quanto do
individualismo revelam a não linearidade de funcionamento do sistema
capitalista. Ou seja, produzem resultados novos cuja intensidade e
qualidade não são lineares e são, portanto, desiguais. Contudo, por
outro lado, são refeitos de modo tão veloz que sempre deixam brechas
para que, por meio de elementos como o consumo, despertem a quase
imediata adesão da população. E o consumo, ao contrário, não é a
projeção do individualismo, e sim a possibilidade de encontro social.
Não à toa e espertamente (para não dizer de forma hipócrita) o consumo
foi usado como símbolo de ascensão social por governos recentes que se
dizem de esquerda. Sem sequer gerar rubor.
Desta
forma, o capitalismo é muito menos o sistema ancorado na exploração, na
concentração, na rígida hierarquia e no individualismo do que no
consumo presente e projetado. Por isso, muito mais flexível do que seus
críticos previam no século XIX. A ponto de transformar seus adversários
em mercadorias. Assim como eu descobri quando percebi que não existia
muita diferença entre mim e qualquer pessoa que, mesmo não tendo a menor
ideia de quem foi e o que representa Che Guevara, poderia ter duas
camisetas com a estampa do revolucionário argentino à frente. Bastava
comprá-las no shopping. O impacto positivo à reprodução do capitalismo
era maior do que a contribuição que o companheiro de Fidel era capaz de
dar à queda do mesmo capitalismo.
Por
isso, ao ler a obra de Boldizzoni lembrei-me de meu passeio pelo
shopping. Naquele dia descobri que o capitalismo é mais inteligente,
ágil e flexível do que as projeções sobre sua queda e seus costumeiros
críticos são capazes de ser. E isso me gerou um estranho sentimento de
liberdade, meu companheiro desde então.

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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