Se a pandemia mostrou algo, foi o brutal despreparo dos países ocidentais para lidar com o vírus. João Pereira Coutinho via FSP:
Amigos
brasileiros enviam mensagens. Que se passa com Portugal? No início da
pandemia, o país era um exemplo para o mundo. Agora, é uma vergonha.
Somos o pior país em número de infectados e mortos por milhão de habitantes.
Entendo
o espanto. Mas ele parte de uma premissa errada: Portugal nunca foi um
exemplo, exceto na retórica dos seus políticos e no jornalismo acrítico
que a divulgou. A situação atual é apenas o somatório de todos os erros cometidos nos últimos 11 meses.
Falhou
tudo. Testes, rastreios, isolamentos. O sistema de saúde não foi
reforçado em tempo útil com o setor social e privado. Não houve
preparação para a segunda onda que todos os cientistas avisaram que
chegaria em outubro. E a demora na vacinação põe o país abaixo da média
europeia.
Sem
falar do comportamento errático das lideranças sanitárias e políticas.
As primeiras, quando ouviram falar do vírus, garantiram que ele jamais
chegaria até nós. Depois, quando chegou, garantiram que o uso de
máscaras não era necessário porque dava apenas “uma falsa sensação de
segurança”.
O
governo esteve ao mesmo nível: proibia ajuntamentos para o cidadão
comum e abria exceções para congressos partidários ou corridas de
Fórmula 1.
De resto, o cúmulo da incompetência está hoje à vista: no momento em que escrevo e com o país de novo confinado, há eleições presidenciais. Ninguém se lembrou de adiá-las, como aconteceu em vários países com surtos pandêmicos.
Eis a verdade: se os mortos por Covid-19 nos Estados Unidos já ultrapassaram as baixas militares da Guerra do Vietnã, os mortos portugueses também já suplantaram os soldados que tombaram na guerra colonial na África (1961-1974).
Meu
único consolo é saber que, apesar de sermos o pior caso no momento, não
estamos sozinhos. Se a pandemia mostrou algo, foi o brutal despreparo
dos países ocidentais para lidar com o infame bicho.
Um
livro recente da dupla John Micklethwait e Adrian Wooldridge (“The
Wake-Up Call”) faz esse diagnóstico com impressionante precisão. Segundo
voz corrente, a pandemia humilhou os liberais ao salientar a
importância do estado para a saúde e para a economia.
Acontece
que esse clichê está errado. O Estado é fundamental, sim, e nenhum
liberal o nega. Mas é preciso que ele seja profissional e capaz.
O
que a pandemia revelou é que os Estados do Ocidente, ao contrário do
que aconteceu com o Oriente no caso da Coreia do Sul ou de Singapura (a
China joga em outro campeonato), não foram capazes de cumprir a sua
função essencial: proteger a população.
Nesse
sentido, a Covid-19 apenas acelerou uma “crise do Estado” que já vinha
de trás e que, cedo ou tarde, seria exposta de forma tão cruel.
Para
os autores, essa crise tem várias causas —o desinteresse dos mais
preparados pela política, que abre espaço para o triunfo dos medíocres; a
burocracia crescente que impede qualquer ação eficaz em tempo útil; a
captura do Estado por lobbies diversos que o parasitam e sugam.
Mas
o Estado também entrou em crise à medida que foi sendo sobrecarregado
com todas as tarefas da nossa vida política e social —das mais soberanas
às mais minúsculas.
Resultado?
O vírus deu a volta ao mundo enquanto os nossos Estados paquidérmicos
ainda calçavam os sapatos (obrigado, Mark Twain).
Ninguém
sabe como será o futuro pós-pandemia. Historicamente, e como lembram
Micklethwait e Wooldridge, surtos do tipo já determinaram o fim de
grandes civilizações, como Atenas ou Roma.
Para
evitar um destino igual, reinventar o Estado para o século 21 é tão
importante como foi a criação do Estado-nação para os séculos 16 e 17
(que pôs fim à rivalidade destrutiva do baronato medieval); do Estado
liberal para os séculos 18 e 19 (que limitou ou aboliu o poder absoluto
dos reis); e do Estado de bem-estar social para o século 20 (que
resgatou da pobreza os eternos “invisíveis” da sociedade).
A
pandemia mostrou a necessidade de Estados mais ágeis, mais
profissionais, capazes de atrair os melhores (e afastar os piores),
centrados nas suas funções essenciais (defesa, justiça, saúde,
educação), rigorosos nos gastos e em colaboração permanente com os casos
de excelência da sociedade civil, das universidades e do setor privado.
Se
isso não acontecer, a trilha sonora que infelizmente acompanha os meus
dias e as minhas noites —sirenes de ambulâncias cruzando as ruas de
Lisboa— só aumentará de intensidade no futuro.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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