Os vigilantes da correção política e instigadores dos "cancelamentos" são os eugenistas da mente, os racistas das ideias. Carlos M. Fernandes para o Observador:
No
princípio, o darwinismo tão-só substituiu a tautologia divina, “Eu sou
Aquele que sou” (Êxodo 3:14), por outra, secular e universal: “eu sou
aquele que sobrevive”. Sem as sofisticações posteriores, as hipóteses a
respeito da origem e variação das espécies através da selecção natural
teriam ficado retidas no terreno da intuição e destituídas de defesas
contra todas as classes de imposturas.
Entre
os promotores contemporâneos das interpretações equivocadas da ideia de
Charles Darwin, encontram-se aqueles que, convencidos da existência de
uma seta temporal indicadora do caminho para o paraíso evolutivo, se
dedicam à entronização do progresso. Do lado oposto, os partidários de
um darwinismo duro concebem os humanos como mísseis pré-programados,
escravos da genética ou, no mínimo, da epigenética. Uns e outros têm
sido os obreiros da nossa queda. No entanto, presentemente, são os
progressistas da nova esquerda, na condição de autoproclamados guias da
evolução humana, quem prescreve os códigos de boa conduta, transformando
sociedades livres, ou que se julgava estarem a caminhar nesse sentido,
em infernos persecutórios. E fazem-no, adaptando as estratégias do
darwinismo social mais drástico ao campo das ideias.
A
etimologia de evolução remonta ao verbo latino evolvere, que significa
abrir, desdobrar. Utilizado no inglês desde o início do século XVII para
descrever o crescimento e maturação dos organismos, o termo seria
aplicado no âmbito do desenvolvimento embrionário pelo cientista suíço
Albrecht von Haller em 1744. Mais tarde, o biólogo Charles Lyell
conferiu-lhe o significado moderno. Quanto a Darwin, só recorreu ao
vocábulo na última frase de A Origem das Espécies (1859). O naturalista
preferia “descendência com modificação”, talvez porque as implicações
teleológicas de um conceito de progresso no sentido de uma finalidade
eram estranhas à sua argumentação. Por razões análogas, Darwin não
gostava da expressão “sobrevivência do mais forte” (que, ainda assim,
viria a usar na quinta edição da sua obra seminal), sentença da lavra de
Herbert Spencer, pai do darwinismo social. Os enganos que têm marcado a
história do darwinismo entraram em jogo no momento da distribuição da
nomenclatura.
As
indecisões baralharam a comunidade científica, viciaram a opinião
pública e conduziram a uma sequência de abusos retóricos. A evolução, no
discurso corrente, tornou-se sinónimo de aperfeiçoamento do organismo,
de viagem biológica em rumo da forma e função perfeitas, definições
desvirtuadas que convidaram à adesão dos mais variados artificies do
Homem Novo. Contudo, Friedrich Nietzsche cedo reparou que “a evolução de
uma coisa, de um costume, de um órgão, não é uma progressão para um
fim”. E até Marx, que fora atraído, num primeiro momento, pela teoria,
se virou para interpretações mais adaptadas às suas crenças, como a
defendida por Pierre Trémaux, quando percebeu que na hipótese original
não tinham lugar o progresso e a revolução. Curiosamente, Trémaux foi o
precursor do equilíbrio pontuado, formalizado pelo biólogo marxista
Stephen Jay Gould em 1972. As reiteradas promessas de neutralidade do
método científico são sempre um tanto exageradas.
Por
infelicidade, as explicações imprecisas da biologia evolutiva escondem a
correcta (e fundamentalmente bela): a evolução é a consequência
histórica da variação aleatória e do erro – ou, pedindo de novo palavras
emprestadas a Nietzsche, “uma sucessão constante de fenómenos mais ou
menos independentes e violentos, de coisas subjugadas por outras
coisas”. Como é sabido, o erro e o acaso e os “fenómenos independentes”
são inconciliáveis com o historicismo das ideologias colectivistas. O
progresso incorpora a supremacia da humanidade sobre as vidas dos
homens, aquela guiada por um plano absoluto que exclui o imprevisto,
estas submetidas como títeres, em conformidade com o valor relativo e
descartável que lhes é concedido.
Se
determinadas leituras abusivas do darwinismo foram feitas por cépticos
das suas consequências metafísicas, outras deveram-se aos seus aliados. O
sobredito darwinismo social, tese quase-racista avançada pelo pacifista
Spencer para alargar a acção da selecção natural à cultura, foi
enjeitado por Darwin, mas difundiu uma caricatura da sua teoria que
ainda hoje ecoa nos corredores das ciências sociais e políticas.
A
extensão lógica do darwinismo social foi a eugenia, princípio proposto
por Francis Galton que advogava o aperfeiçoamento da espécie humana
através da supressão activa de características indesejáveis – por outras
palavras, o apuramento da raça por selecção artificial, tal qual
praticado nos cães. Da doutrina à esterilização dos inadaptados (como
aconteceu em diversos países ocidentais) e ao extermínio étnico, foi um
passo. O Homem, depois de substituir Deus pela História no poder sobre o
destino dos homens, era posto ao comando dessa mesma História,
política, social e agora biológica. A ideia de Darwin, ainda que isenta
de culpas, ficou associada a tais despautérios.
A
polémica acompanhou o darwinismo desde a sua génese. Hoje, pretende-se
circunscrever as controvérsias à fronteira entre criacionistas e
evolucionistas, mas esse conflito entre duas facções intransigentes
faculta uma visão muito estreita das guerras científicas e filosóficas
que agitam a comunidade há mais de 150 anos. É um facto histórico que a
Igreja e a Biologia entraram em rota de colisão por diversas vezes,
mesmo antes da revolução darwinista. Erasmus Darwin, avô de Charles e de
Galton, ao tomar conhecimento de que o seu Zoonomia (1794) havia sido
mal recebido pelo clero local, resolveu apagar da carruagem da família,
por precaução, o lema e conchis omni, tudo vem das conchas, que resumia a
sua convicção de que a vida procede de uma única forma. Porém, ao longo
do tempo, foram vários os cientistas que alinharam no assalto à teoria
da selecção natural. Limito-me a assinalar um exemplo, antes que estes
parágrafos se confundam com uma sinóptica e mal-amanhada História do
darwinismo.
Rudolf
Virchow foi um consagrado biólogo alemão. Foi também progressista,
anticatólico, ateu, provavelmente mação, e incansável no combate à
eugenia e aos credos na superioridade da raça ariana. Apesar disso, não
se deixou entusiasmar pelas conjecturas de Darwin, e chegou a ser
agressivo na rejeição, em particular com a hipótese da ascendência
pitecóide do homem. Na sua opinião, os fósseis de hominídeos encontrados
até à época eram apenas monstruosidades patológicas e não certificavam
qualquer parentesco entre os homens e os primatas ancestrais. Virchow,
como outros antes e depois dele, não estava disposto a admitir a imagem
de um “macaco sublime que é o homem” (Lautréamont).
Ao
mesmo tempo, a Igreja tentava adaptar-se ao darwinismo e encontrar um
equilíbrio entre este e os dogmas (sem tocar, obviamente, nas questões
da origem da vida, do livre-arbítrio e da imortalidade da alma): veja-se
o exemplo do entomologista e padre jesuíta Erich Wasmann, partidário da
evolução. Só mesmo as interpretações literais das escrituras é que
mantiveram a biologia evolutiva ao largo. O evolucionista Ernst Haeckel,
em 1905, numa conferência em Berlim, já defendia o diálogo entre as
ciências biológicas e a religião, afirmando que, se o conhecimento da
natureza “é inconciliável com os dogmas místicos”, “o alto valor ético
da moral cristã” deveria ser admitido pelos cientistas.
Sintetizando,
o darwinismo foi fabricado por erros, heresias, conflitos, dissensões e
dúvidas, foi perturbado por aderentes e reforçado por adversários, foi
atacado por cientistas e defendido por sacerdotes, e se encontrou na
religião um rival combativo, também não teve a vida facilitada no
domínio da ciência. A sua história é um fascinante encadeamento de
avanços e recuos. Só uma sociedade doente e apartada dos valores
fundamentais pode elevar um oximoro como o consenso científico ao
estatuto de dogma laico.
Acrescente-se
que a biologia evolutiva e a genética são, ao dia de hoje, muito mais
perigosas para o progresso do que para a religião. O fascínio da
extrema-esquerda por Darwin e pelo ADN esgota-se no potencial para
irritar os criacionistas. Empenhados em cruzadas contra “estereótipos2 e
“condicionamentos culturais”, os neomarxistas apelam a versões
distorcidas da ciência para validar os seus preconceitos, declinando
dados e análises que os questionem, nomeadamente aqueles que abordam os
atributos biológicos dos sexos e das etnias ou as grandes causas
ecológicas do momento. Tudo o que ameace a estrutura ideológica que
edificaram para controlar a vida dos outros é marcado com o rótulo de
heresia. Se a ciência divulga resultados que confirmem as suas
convicções, eis o consenso. Se põe em causa a ideologia do género ou as
construções pseudocientíficas da Teoria Crítica sobre o racismo e a luta
de classes, é positivismo ou ciência do patriarcado. A postura seria
caricata e risível se não viesse acompanhada de um novo tipo censura
assaz produtiva. Neste contexto, o darwinismo oferece-se como fonte de
analogias.
Como vimos pelo exemplo de Spencer, o alargamento da teoria da selecção ao território da cultura foi praticado desde a publicação da Origem. Mais recentemente, o biólogo Richard Dawkins tentou o mesmo e cunhou um termo de inspiração evolutiva que, como o darwinismo original, deu azo a uma pseudociência e a uma multidão de discípulos deslumbrados. Refiro-me ao meme como unidade de informação cultural e análogo psicológico de gene. O conceito, apesar dos excessos, apresenta algumas virtudes.
De
acordo com a metáfora, os memes, como os genes, estão sujeitos ao labor
da selecção. A seguinte descrição não é a mais correcta mas, por
exigências de simplicidade, vou associar os memes a ideias e alinhar nas
definições rudimentares da evolução: no reino da memética, as ideias
mais adaptadas sobrevivem e reproduzem-se – isto é, evoluem.
O
meme de Dawkins não é totalmente original, pois insinua-se no
pensamento evolucionista desde o século XIX e encontra-se, em forma
embrionária, na obra de Arthur Koestler. Porém, Dawkins cobriu-o de um
formalismo que nos permite articular hipóteses interessantes. Por outro
lado, cria-nos problemas quando consideramos memes, como o comunismo,
que, numa primeira análise, parecem conduzir a regiões inóspitas do
espaço cultural: o comunismo tem como resultado, fatalmente, a miséria
material e moral. A sobrevivência (e prosperidade) do meme marxista é um
mistério. Enferma então, a memética de Dawkins, de um défice de
generalidade e de uma inconsistência irresolúvel? Não necessariamente.
Em primeiro lugar, a quantificação da aptidão é um exercício complicado e
constrangido, principalmente na esfera cultural, por interacções
complexas. Em segundo, podemos sempre expandir a analogia biológica e
caracterizar o comunismo como um vírus: um vírus endémico que, em
determinadas circunstâncias e locais, causa surtos violentos, e que em
ocasiões ameaça mesmo progredir para uma fase pandémica. Além do mais,
actua no comportamento dos hospedeiros, transfigurando-os em polícias
dos anticorpos e dos memes que concorrem com o seu jugo parasitário. Os
vigilantes da correcção política e instigadores dos «cancelamentos» são
os eugenistas da mente, os racistas das ideias.
Desta
forma, a nova censura não precisa de leis nem polícia política. Os
progressistas praticam métodos mais eficientes, que laboram na génese,
desenvolvimento e difusão das ideias. A repressão cultural refinou-se, é
mais precisa e localizada, quase científica – no sentido corrompido do
termo com que habitualmente se categoriza o nazismo. E quando tem que
actuar nos veículos do conhecimento, como os livros, não é mister
queimá-los, basta retirá-los dos currículos escolares ou bloqueá-los,
nas editoras, antes de serem dados à estampa. Vergílio Ferreira, nos
seus diários, revela que a censura do regime durante o Estado Novo não
era tão acutilante como a exercida, em paralelo, pelos comunistas que
controlavam o mercado editorial e critico. Desde então, esse controlo
foi aperfeiçoado com o auxílio de uma rede de patrulhas doutrinárias e
de um substrato teórico criados nos viveiros académicos. A censura
adaptou-se. Na actualidade, aquilo que enfrentamos é um poderoso
mecanismo de selecção artificial de ideias.
Em
Meridiano de Sangue, Cormac McCarthy apresenta o mais forte, complexo e
ininteligível vilão da literatura contemporânea: o Juiz Holden. Holden é
um evolucionista. Estuda os bichos e as eras geológicas e à invocação
das escrituras responde com as pedras e os «ossos das criaturas», as
coisas através das quais, diz, “Deus fala”. Nas pausas dos massacres,
desenha as plantas e os pássaros para logo matá-los. Nos descansos de
uma missão sem termo, representa os artefactos e a arte nativa para
depois os destruir. Holden é o mensageiro da ciência de Keats, o agente
da “filosofia fria” que revoga os encantos do universo natural.
No
cosmos de Holden não há lugar para a espiritualidade, não há bem nem
mal, apenas a pulsação amoral dos fenómenos. A dada altura, o juiz
propõe uma eugenia radical: “[às crianças], deviam pô-las num fosso como
cães selvagens. Deviam obrigá-las a escolher entre três portas,
unicamente com base nos seus raciocínios e deduções, qual a que não
alberga leões esfomeadas.” Os novos censores são os leões da alegoria do
juiz. Mas estas feras não deixam a selecção ao julgamento imparcial da
natureza: devoram as crianças tendo as suas crenças como único critério.
A
referência, em modo de remate, a uma personagem tão sinistra e capaz de
uma violência singular, pode parecer exagerada. Defendo a bondade da
alusão invocando a convicção de que, caso consintamos que a eugenia das
ideias siga o seu caminho, um dia nos encontraremos perante as mesmas
paisagens estéreis e manchadas de sangue através das quais cavalga a
quadrilha de Holden. Nessa altura, seremos todos “seres de uma época
pretérita”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


Nenhum comentário:
Postar um comentário