BLOG ORLANDO TAMBOSI
Os
Estados Unidos vão invadir o Brasil — ou, no mínimo, derrubar aviões do
tráfico sobre a Amazônia ou explodir narcobarcos? A alucinação coletiva
que engolfou o Brasil desde a declaração de duas quadrilhas do crime
como organizações terroristas fez circular especulações enlouquecidas.
No campo mais do ridículo do que do dramático, houve especialistas
alegando que os bancos, pobrezinhos, iam ter mais trabalho para barrar a
lavagem de dinheiro. Imaginem só o ônus de cumprir a lei — ignorando o
fato de que as grandes instituições já têm mecanismos eficientes. Não
deveriam os defensores da soberania bancária estar mais preocupados com a
sofisticação das organizações criminosas, capazes de criar suas
próprias estruturas no sistema financeiro? Não deveria essa capacidade
causar horror pelo que retrata do avanço tentacular do crime?
É
compreensível que países mais fracos tenham reações de orgulho nacional
ferido quando o gigante americano se mobiliza para reprimir mais a
lavagem de dinheiro em escala internacional, implicando monitoramento de
movimentos nacionais. Mas é inaceitável que isso dê vazão a surtos de
patriotada, quando não de simpatia pelos próprios criminosos, agora
promovidos a “nossos”, como espécie de riqueza nacional mais cobiçada do
que terras-raras. A simpatia por bandidos é um dos pontos mais fracos
de qualquer governo de esquerda, seja no Brasil, seja no México, onde a
presidente Claudia Sheinbaum reagiu com veemência comparável à das
autoridades brasileiras ao caso dos cartéis declarados terroristas,
embora sem a palhaçada populista alheia a seu estilo austero. Falar é
uma coisa, fazer é outra — e ela já extraditou 29 bandidões para os
Estados Unidos. É um modo de evitar que, como no Brasil, chefes do crime
conservem na cadeia o domínio da estrutura de poder que lhes permite
continuar tocando suas atividades ilegais. Sem contar a glamorização da
bandidagem transformada em fenômeno por personalidades como a
influenciadora que, além de ósculos presidenciais, provoca até
manifestações de apoio nas ruas e o cantor de funk da dinastia do crime.
Esse é o problema mais sistêmico: quando os maus convencem os bons a
segui-los e exaltar seus feitos. Em vez de sonhar em ser Vinicius Jr.,
filhos de pobres são doutrinados a projetar suas expectativas em
traficantes com medalhão de ouro no pescoço e Glock na mão. É pedagógico
prestar atenção à letra do mencionado cantor que diz: “Noites de ódio
na boca, revoltado com o Estado / Em memória de uns parceiro que hoje
não está do meu lado / Na madrugada é nóis que manda, fortemente
armado”.
O
“nóis que manda” tem um apelo forte entre os que não mandam nada, nem
mesmo em seus instintos manipuláveis. Não são as diatribes de um
presidente nem as novas regras americanas sobre a reclassificação de
organizações criminosas que mudarão isso. Somos “nóis” mesmos. Apesar da
impotência diante de forças poderosas, é possível resistir, sim, e ver
resultados. Nos EUA, as mortes por overdose de fentanil caíram de mais
de 100 000 em 2022 para menos de 70 000. O número é espantoso, mas ajuda
a entender por que o governo Trump resolveu peitar um fenômeno de
proporções existenciais, mesmo passando por cima das sensibilidades de
líderes esquerdistas. “Sobe lá no morro e pergunta se o bandido é o
vilão”, desafia outra música do tal cantor. Da resposta depende o país
que nos tornaremos.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998

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