segunda-feira, 19 de abril de 2021

Afastado do debate público, Moro perde força eleitoral.

 



É bastante provável que Moro nem sequer cogite disputar a eleição presidencial. E tudo está contribuindo para que essa possibilidade se torne cada vez mais distante. Diogo Schelp para a Gazeta do Povo:


Mesmo quem desconfia de pesquisas de intenção de voto há de concordar que o relativo sumiço do ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro do debate público não contribui para o seu capital político. Enquanto seu nome é jogado na lama por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) — como a da Segunda Turma que o julgou parcial no processo que condenou o ex-presidente Lula pelo triplex no Guarujá, com aplausos tanto de petistas quanto de alguns bolsonaristas — e enquanto revelações das mensagens roubadas de celular continuam sendo repassadas a conta-gotas à imprensa por advogados lulistas, Moro está submerso em seu novo emprego na iniciativa privada e tem se esforçado para se manter longe dos holofotes e de polêmicas. Mas isso significa que ele também não está defendendo a sua biografia como poderia.

"Tenho que preservar minha biografia", foi o que disse Moro quando deixou o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro, em abril do ano passado. O episódio tornou-o alvo de uma parcela dos apoiadores do presidente. Da noite para o dia, Moro virou "comunista" para alguns deles. Para os petistas, que o têm como inimigo máximo, ele sempre foi a representação do pior da extrema direita.

Qual foi o nicho político que sobrou, portanto, para Moro? Qual parcela do público lavajatista ainda o tem como herói? Moro ficou espremido entre uma parcela do bolsonarismo empedernido, que não aceita dissidências, e uma esquerda patológica, que tem seus próprios mitos para adorar. Segundo a última pesquisa DataPoder, divulgada na semana passada, ele é o possível candidato à presidência com maior rejeição: 60% dos entrevistados não votariam nele de jeito nenhum, contra 50% em Bolsonaro e 41% em Lula. Apenas 13% disseram que teriam Moro como única opção de voto.

Desde que saiu do governo, Moro, a bem da verdade, teve pouco sucesso em sua meta de preservar a própria biografia. O vazamento de mensagens e o STF se encarregaram de manchá-la cada vez mais. E, enquanto espera o plenário STF reavaliar a decisão da Segunda Turma de considerá-lo parcial na condenação que deu a Lula, o que deve acontecer esta semana, Moro está afastado do debate político mais amplo.

Sua última postagem no Twitter, até o momento da publicação deste texto, é do início de abril. No dia 24 de março, ele divulgou uma nota lamentando a decisão da Segunda Turma e afirmando que estava tranquilo em relação aos "acertos das minhas decisões, todas fundamentadas". Sua última entrevista foi no final de março. E foi basicamente isso.

Mais do que tuítes, entrevistas ou declarações públicas que mantenham ativo no debate público do país, no entanto, o que mais faltou a Moro nos últimos doze meses, desde que saiu do governo, foi articulação política. Um experiente observador dos bastidores de Brasília me disse recentemente: "É incompreensível como alguém que tinha a popularidade e o capital político de Moro seja capaz de desperdiçar tudo isso pela simples falta de disposição de manter canais de diálogo aberto com políticos e gente influente."

A pesquisa XP/Ipespe divulgada no final de março mostra o impacto do sumiço de Moro do debate público: em abril do ano passado, em simulações de segundo turno para a eleição de 2022, o ex-juiz aparecia com 58% das intenções de voto, muito à frente de Bolsonaro, com 24%. Desde então, o desempenho de Moro no confronto com o atual presidente despencou. Na última pesquisa, eles aparecem tecnicamente empatados com cerca de 30% dos votos em uma eventual disputa de segundo turno.

Isso se Moro conseguisse chegar ao segundo turno. Tanto a pesquisa do PoderData quanto a da XP/Ipespe indicam que o mais provável seria um enfrentamento entre Bolsonaro e Lula. É óbvio que pesquisa não é urna e que há muito chão pela frente até as eleições de 2022. Mas a diferença entre o apoio eleitoral a Moro que as pesquisas captavam um ano atrás e agora é tão grande, que não deixa dúvida quanto à perda de capital político do ex-juiz.

Em parte isso se explica que porque desde então Moro virou saco de pancada, alvo de ganchos de esquerda e de direita. Em parte porque o noticiário, recheado com mensagens comprometedoras vazadas por advogados lulistas, não é favorável a ele. Em parte, também, por causa do contexto jurídico desfavorável no STF.

Mas, em grande parte, isso se deve à própria atitude adotada por Moro desde que saiu do governo. Arranjou um emprego em uma consultoria que presta serviços, ainda que em outra área, à Odebrecht, ficou na maior parte do tempo à sombra dos grandes debates que vêm atormentado os brasileiros nessa fase difícil que o país está passando e fez poucos esforços de articulação política nos bastidores.

É bastante provável que Moro sequer cogite disputar a eleição presidencial. E tudo está contribuindo para que essa possibilidade se torne cada vez mais distante.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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