A sanha jacobina de querer recomeçar a sociedade do zero e apagar o passado só rendeu maus frutos. Bruno Garschagen para a Oeste:
A natureza política dos atuais grupos de manifestantes
revolucionários mundo afora não é uma novidade na História. A tentativa
de recomeçar a sociedade do zero, de destruir tudo o que foi construído
até o presente, de usar a violência como método de ação, de instituir o
caos e a anomia para quebrar resistências e impor o medo, de calar quem
discorda, de uniformizar mentalidades e comportamentos individuais teve o
jacobinismo durante a revolução francesa como grande e influente
exemplo histórico no Ocidente.
A infâmia jacobina foi muito bem descrita no calor dos acontecimentos
por Edmund Burke em suas Reflexões sobre a Revolução na França (1790),
por Joseph de Maistre em suas Considerações sobre a França (1796), por
Augustin Barruel em suas Memórias para Assistir a História do
Jacobinismo (1797) (1797). O paralelo entre os jacobinos franceses e os
revolucionários de hoje cabe em muitos aspectos, mas quero tratar aqui
de apenas um deles: a tentativa de destruição da História, vista como
algo negativo que só rendeu maus frutos.
É exemplo recente a vandalização e a derrubada de estátuas de figuras
históricas em vários países, como Estados Unidos e Inglaterra — no
Brasil, a coisa não descambou porque os radicais daqui desconhecem a
nossa História. Os revolucionários internacionalistas aproveitaram a
reação legítima contra o assassinato de George Floyd por um policial nos
Estados Unidos para dar vazão ao seu jacobinismo contemporâneo. Tudo
com o apoio dos jacobinos nas universidades e na imprensa.
Não bastava exigir que o criminoso fosse punido e que episódios como
aquele não fossem mais tolerados: era necessário atacar monumentos e
exigir que a História fosse reescrita; era imperativo fazer das ruas um
tribunal de exceção para condenar e executar sem julgamento qualquer
personagem que pudesse, aos olhos de hoje, ser qualificado de racista ou
supremacista branco. Em vez de defenderem a celebração de outras
figuras históricas, a inclusão de novos vultos, preferiram, como sempre,
a destruição em vez da construção.
Numa entrevista recente ao canal PoliticsJOE,
o escritor inglês Douglas Murray mostrou-se alarmado com o simplismo
que tomou conta da avaliação da História, a forma simplória com que os
eventos históricos passaram a ser enquadrados ideologicamente.
Autor dos ótimos livros The Strange Death of Europe (Bloomsbury
Continuum, 2017) e The Madness of Crowds (Bloomsbury Continuum, 2019),
Murray explicou que aqueles que acham que a História deve ser apagada e
reconstruída do zero, que qualquer resquício do passado deve ser
eliminado, também destroem a sua origem, o país onde nasceram e residem.
Esse movimento revolucionário é facilitado pelo desconhecimento da
História, inclusive no Reino Unido. “A História não é só mal ensinada.
Na verdade, ela nem chega a ser ensinada”, lamentou Murray.
Uma pesquisa realizada em 2008 mostrou que 23% dos adolescentes
britânicos achavam que sir Winston S. Churchill era um personagem
fictício. Para piorar o que já era grave, 58% dos entrevistados
acreditavam que Sherlock Holmes, a mais famosa criação do escritor
Arthur Conan Doyle, realmente existiu. Outra pesquisa publicada em 2010
mostrou que metade dos jovens britânicos era incapaz de identificar quem
foi Churchill.
Apesar disso, numa pesquisa realizada pela BBC em 2002, a maioria do
público adulto escolheu Churchill como o “maior britânico de todos os
tempos”. Segundo se disse, a escolha foi favorecida por um programa de
TV exibido à época sobre a atuação do líder inglês na 2ª Guerra. O
resultado deve ter irritado muita gente da própria BBC, que é conhecida
pelo seu esquerdismo à inglesa. É contraditório, inclusive, o fato de
uma emissora estatal que produziu tantos filmes históricos estar sendo
usada como instrumento de revisionismo. Um caso recente é exemplar.
Após enorme pressão pública, a direção da BBC foi obrigada a voltar
atrás na decisão de impedir que fossem cantadas as letras das músicas
Rule, Britannia! e Land of Hope and Glory na Última Noite dos Proms
(abreviação de promenade concerts), festival anual de música clássica
exibido durante oito semanas pela emissora.
Embora a justificativa fora o número reduzido de integrantes da
orquestra para cantar as músicas em razão da covid-19, a motivação teria
sido a percepção de que as letras celebrariam a escravidão e o
colonialismo. Recomendo que você procure as letras no Google, leia e
verifique como isso é uma grande tolice.
A BBC recuou, mas as discussões continuam e poderão antecipar a
mudança na direção da emissora. Antes do episódio das músicas, o
historiador Nigel Jones escreveu no site da ótima revista The Critic um
artigo com título autoexplicativo: “Um presidente (do conselho) conservador não salvará a BBC”.
Com experiência de quem já trabalhou para a emissora estatal, Jones
afirmou que, independentemente de quem for o escolhido, é missão
impossível limpar o esquerdismo da emissora sem despedir todo mundo e
começar o trabalho com nova equipe. “A podridão foi longe demais e o
veneno do wokeism esquerdista está enraizado na própria corrente
sanguínea da BBC.”
Os jornalistas Andrew Neil e Charles Moore têm sido apontados como
possíveis escolhas do primeiro-ministro Boris Johnson. Jones duvida:
“Johnson é, seguramente, muito tímido e pusilânime para nomear qualquer
um dos dois, mesmo que eles estivessem dispostos a aceitar o cargo”.
Naquela entrevista que citei, Murray disse que o primeiro-ministro
foi covarde ao não defender Churchill tão logo sua estátua próxima ao
Parlamento foi vandalizada — a reação veio bem depois. Johnson tem sido
criticado por muitos conservadores pela postura e decisões. Aqui na
Revista Oeste, em julho, critiquei-o no artigo “Quo vadis, Boris Johnson?”.
Talvez o efeito colateral imprevisto e positivo dessa sanha
destruidora do jacobinismo contemporâneo contra a História seja
despertar a curiosidade e torná-la conhecida de um público que a
ignorava. Este é, portanto, um momento de extraordinária oportunidade
para restaurá-la adequadamente e torná-la acessível a um público
disposto a aprender o que não foi ensinado (ou foi mal ensinado) na
escola e que foi deturpado por pesquisadores e intelectuais públicos.
Inclusive no Brasil.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário