MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Os destruidores da História

 


A sanha jacobina de querer recomeçar a sociedade do zero e apagar o passado só rendeu maus frutos. Bruno Garschagen para a Oeste:


A natureza política dos atuais grupos de manifestantes revolucionários mundo afora não é uma novidade na História. A tentativa de recomeçar a sociedade do zero, de destruir tudo o que foi construído até o presente, de usar a violência como método de ação, de instituir o caos e a anomia para quebrar resistências e impor o medo, de calar quem discorda, de uniformizar mentalidades e comportamentos individuais teve o jacobinismo durante a revolução francesa como grande e influente exemplo histórico no Ocidente.

A infâmia jacobina foi muito bem descrita no calor dos acontecimentos por Edmund Burke em suas Reflexões sobre a Revolução na França (1790), por Joseph de Maistre em suas Considerações sobre a França (1796), por Augustin Barruel em suas Memórias para Assistir a História do Jacobinismo (1797) (1797). O paralelo entre os jacobinos franceses e os revolucionários de hoje cabe em muitos aspectos, mas quero tratar aqui de apenas um deles: a tentativa de destruição da História, vista como algo negativo que só rendeu maus frutos.

É exemplo recente a vandalização e a derrubada de estátuas de figuras históricas em vários países, como Estados Unidos e Inglaterra — no Brasil, a coisa não descambou porque os radicais daqui desconhecem a nossa História. Os revolucionários internacionalistas aproveitaram a reação legítima contra o assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos para dar vazão ao seu jacobinismo contemporâneo. Tudo com o apoio dos jacobinos nas universidades e na imprensa.

Não bastava exigir que o criminoso fosse punido e que episódios como aquele não fossem mais tolerados: era necessário atacar monumentos e exigir que a História fosse reescrita; era imperativo fazer das ruas um tribunal de exceção para condenar e executar sem julgamento qualquer personagem que pudesse, aos olhos de hoje, ser qualificado de racista ou supremacista branco. Em vez de defenderem a celebração de outras figuras históricas, a inclusão de novos vultos, preferiram, como sempre, a destruição em vez da construção.

Numa entrevista recente ao canal PoliticsJOE, o escritor inglês Douglas Murray mostrou-se alarmado com o simplismo que tomou conta da avaliação da História, a forma simplória com que os eventos históricos passaram a ser enquadrados ideologicamente.

Autor dos ótimos livros The Strange Death of Europe (Bloomsbury Continuum, 2017) e The Madness of Crowds (Bloomsbury Continuum, 2019), Murray explicou que aqueles que acham que a História deve ser apagada e reconstruída do zero, que qualquer resquício do passado deve ser eliminado, também destroem a sua origem, o país onde nasceram e residem. Esse movimento revolucionário é facilitado pelo desconhecimento da História, inclusive no Reino Unido. “A História não é só mal ensinada. Na verdade, ela nem chega a ser ensinada”, lamentou Murray.

Uma pesquisa realizada em 2008 mostrou que 23% dos adolescentes britânicos achavam que sir Winston S. Churchill era um personagem fictício. Para piorar o que já era grave, 58% dos entrevistados acreditavam que Sherlock Holmes, a mais famosa criação do escritor Arthur Conan Doyle, realmente existiu. Outra pesquisa publicada em 2010 mostrou que metade dos jovens britânicos era incapaz de identificar quem foi Churchill.

Apesar disso, numa pesquisa realizada pela BBC em 2002, a maioria do público adulto escolheu Churchill como o “maior britânico de todos os tempos”. Segundo se disse, a escolha foi favorecida por um programa de TV exibido à época sobre a atuação do líder inglês na 2ª Guerra. O resultado deve ter irritado muita gente da própria BBC, que é conhecida pelo seu esquerdismo à inglesa. É contraditório, inclusive, o fato de uma emissora estatal que produziu tantos filmes históricos estar sendo usada como instrumento de revisionismo. Um caso recente é exemplar.

Após enorme pressão pública, a direção da BBC foi obrigada a voltar atrás na decisão de impedir que fossem cantadas as letras das músicas Rule, Britannia! e Land of Hope and Glory na Última Noite dos Proms (abreviação de promenade concerts), festival anual de música clássica exibido durante oito semanas pela emissora.

Embora a justificativa fora o número reduzido de integrantes da orquestra para cantar as músicas em razão da covid-19, a motivação teria sido a percepção de que as letras celebrariam a escravidão e o colonialismo. Recomendo que você procure as letras no Google, leia e verifique como isso é uma grande tolice.

A BBC recuou, mas as discussões continuam e poderão antecipar a mudança na direção da emissora. Antes do episódio das músicas, o historiador Nigel Jones escreveu no site da ótima revista The Critic um artigo com título autoexplicativo: “Um presidente (do conselho) conservador não salvará a BBC”. Com experiência de quem já trabalhou para a emissora estatal, Jones afirmou que, independentemente de quem for o escolhido, é missão impossível limpar o esquerdismo da emissora sem despedir todo mundo e começar o trabalho com nova equipe. “A podridão foi longe demais e o veneno do wokeism esquerdista está enraizado na própria corrente sanguínea da BBC.”

Os jornalistas Andrew Neil e Charles Moore têm sido apontados como possíveis escolhas do primeiro-ministro Boris Johnson. Jones duvida: “Johnson é, seguramente, muito tímido e pusilânime para nomear qualquer um dos dois, mesmo que eles estivessem dispostos a aceitar o cargo”.

Naquela entrevista que citei, Murray disse que o primeiro-ministro foi covarde ao não defender Churchill tão logo sua estátua próxima ao Parlamento foi vandalizada — a reação veio bem depois. Johnson tem sido criticado por muitos conservadores pela postura e decisões. Aqui na Revista Oeste, em julho, critiquei-o no artigo “Quo vadis, Boris Johnson?”.

Talvez o efeito colateral imprevisto e positivo dessa sanha destruidora do jacobinismo contemporâneo contra a História seja despertar a curiosidade e torná-la conhecida de um público que a ignorava. Este é, portanto, um momento de extraordinária oportunidade para restaurá-la adequadamente e torná-la acessível a um público disposto a aprender o que não foi ensinado (ou foi mal ensinado) na escola e que foi deturpado por pesquisadores e intelectuais públicos. Inclusive no Brasil.
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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