O brasileiro comum percebe que, no fundo, é disso que se trata: da
apropriação e manipulação de bandeiras legítimas – os direitos das
minorias, a liberdade de expressão, o combate ao preconceito – por um
campo político. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:
Três anos atrás, em setembro de 2017, durante o evento “Panorama da
Arte Brasileira”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, um artista
plástico apresentou uma performance na qual uma criança de quatro anos
era estimulada a interagir fisicamente com um homem adulto nu, para
deleite de uma plateia formada por adultos vestidos.
Um vídeo registrando trechos da performance viralizou nas redes
sociais e despertou reações imediatas da sociedade. Foram tantas as
manifestações de indignação de brasileiros comuns que o Ministério
Público abriu um inquérito para investigar o eventual caráter criminoso
da performance, por expor e constranger uma criança a uma situação
percebida como repugnante e inaceitável pela imensa maioria das pessoas
que viram as imagens.
A resposta do museu foi divulgar uma nota afirmando que as reações
negativas à performance eram, vejam só, "resultado de desinformação,
deturpação do contexto e do significado da obra" e lamentando “as
interpretações açodadas e manifestações de ódio e de intimidação à
liberdade de expressão que rapidamente se espalharam pelas redes
sociais".
Os artistas e intelectuais que se manifestaram sobre o episódio
seguiram o mesmo diapasão, acusando de ignorantes e defensores da
censura as pessoas comuns que não entendiam nada de arte e não tinham
capacidade para entender a beleza e a sensibilidade de se expor uma
criança à nudez de um adulto.
O caso foi tema de um debate em um programa de variedades na TV, no
qual todos os participantes repetiram, previsivelmente, o mesmo
discurso. Para justificar o injustificável, citaram a nudez do Davi de
Michelangelo, citaram as praias de nudismo, citaram hábitos e costumes
da Dinamarca.
O que não estava previsto era a intervenção de uma simpática senhora
da plateia, dona Regina, que lembrou aos debatedores o óbvio: tratava-se
de uma criança. Façam a arte que bem entenderem, aliás nudez não choca
mais ninguém, mas a infância é uma fronteira que não pode ser
ultrapassada. Na época, escrevi uma “Carta aberta à dona Regina”, da
qual destaco os trechos abaixo:
“Com seu jeito simples, o que a senhora fez foi revelar o abismo
crescente que se cava entre os brasileiros comuns e a classe que
pretende falar em seu nome. Esses brasileiros não se chocam com a nudez
nem estão interessados na arte das elites pensantes e falantes, até
porque têm mais o que fazer. Mas, para esses brasileiros, a infância é
uma fronteira que não pode ser ultrapassada. O que a senhora fez foi
vocalizar o desconforto do Brasil real diante desse limite que foi
desrespeitado.
“A reação dos apresentadores foi reveladora desse abismo. Diante de
uma idosa que poderia ser mãe ou avó deles, as expressões e olhares
foram de perplexidade, ódio, desprezo, deboche. E a senhora respondeu
com um olhar de bondade, sereno e doce. Ao “Não vou nem comentar”
emitido com ar de desdém e superioridade moral [por uma participante do
debate], a senhora respondeu com a paciência de quem não se incomoda em
explicar o óbvio: o choque não vinha da nudez do adulto, vinha da
exposição da criança. E o fato de a menina estar acompanhada da mãe não
era um atenuante da situação: era um agravante. (...)
“Não sei se esses intelectuais das redes sociais não entendem ou se
fingem que não entendem nada disso. O mais irônico, Dona Regina, é que
eles parecem não se dar conta da campanha involuntária que estão
fazendo, ao jogarem no colo da direita a bandeira da defesa da infância –
como já jogaram, aliás, a bandeira do combate à corrupção. Com
progressistas agindo dessa maneira, os conservadores agradecem.”
Comentando meu texto, um amigo discordou e me disse que eu estava
sendo conservador e careta. Respondi: “Continuem mexendo com crianças e
vocês vão eleger Bolsonaro no primeiro turno”. Estávamos, repito, em
setembro de 2017, quando a vitória de Bolsonaro não era vislumbrada nem
nos piores pesadelos da esquerda.
Eu me lembrei do episódio de dona Regina ao me deparar com uma recente postagem de um youtuber famoso, que afirmava o seguinte:
“Tweets óbvios que todo mundo sabe (ou deveria):
Mulher trans é mulher. (...)
Se você não sabe disso em 2020, você precisa sair da bolha hétero e conversar com mais gente.”
(Parêntesis: por causa de uma brincadeira, o mesmo blogueiro havia
sido acusado de transfobia pouco tempo antes dessa postagem. Há um
mecanismo psicológico curioso em curso: as pessoas massacradas e
ameaçadas de cancelamento abaixam a cabeça e se submetem à patrulha.
Aconteceu recentemente com uma historiadora, a quem desautorizaram e
mandaram calar a boca por não ter “lugar de fala” para escrever sobre
determinados temas – e ela concordou e pediu desculpas. É uma espécie de
Síndrome de Estocolmo do cancelamento).
Voltando ao tweet lacrador: a língua portuguesa é viva, e o sentido
das palavras é flexível, mas a biologia e a natureza não são. Cada um
opta pela definição de mulher que julgar mais adequada, mas a natureza
seguirá indiferente. Por óbvio, existem diferenças biológicas e
anatômicas entre quem nasce mulher e quem nasce homem e decide assumir
uma identidade de gênero feminina que nenhum artifício de linguagem e
nenhuma sociologia podem mudar. (Atenção, nada contra os trans: pessoas
adultas devem ser livres para fazer suas escolhas, com responsabilidade e
sem sofrer discriminação.)
Mas o propósito aqui não é criticar o youtuber, nem iniciar um debate
sobre gênero e sexualidade, ou sobre as distintas definições
(biológicas, psicológicas, socioculturais etc) de homem e mulher. Vou me
ater ao caráter imperativo e impositivo da postagem, porque reconheci
ali o mesmo tom intransigente e debochado de superioridade moral, a
mesma atitude arrogante com que intelectuais e artistas progressistas
fizeram cara de nojinho para dona Regina e defenderam a performance
artística que expôs uma criança – sem entender que, com isso, estavam
fazendo campanha involuntária para Bolsonaro e a direita conservadora.
Essa atitude revela que a esquerda ainda não entendeu que, ao fazer
pouco dos valores da maioria dos brasileiros, está se isolando do país
real e perdendo cada vez mais apoio da população. Está, também,
prestando um desserviço a bandeiras legítimas das minorias, já que essas
causas passam a ser vistas como monopólio de um campo político hoje
minoritário e desmoralizado. Porque, vamos combinar, quando se parte
para o sectarismo e a perseguição, o objetivo não é buscar o
entendimento e o consenso sobre direitos, mas usar minorias para atacar,
desqualificar, calar e abater brasileiros comuns apontados como
inimigos pelo simples fato de defenderem valores conservadores.
O brasileiro comum percebe que, no fundo, é disso que se trata: da
apropriação e manipulação de bandeiras legítimas – os direitos das
minorias, a liberdade de expressão, o combate ao preconceito – por um
campo político que já se declarou capaz de “fazer o diabo” pelo poder.
Transformadas em ferramentas de um embate ideológico, essas bandeiras
ficam contaminadas, por associação, pelo colapso moral da esquerda
brasileira associada ao lulopetismo. Aos olhos do brasileiro comum, o
que deveria ser luta legítima e construtiva pela igualdade de direitos e
pela união de todos os brasileiros se torna guerrilha lacradora focada
em sabotar e destruir.
Foi esse brasileiro comum – que está cansado de ser chamado
diariamente de burro e fascista e de ser calado na base do grito e do
constrangimento – que elegeu e pode reeleger Bolsonaro. Esse brasileiro
comum ficou indignado quando viu imagens de uma criança sendo exposta ao
contato com um adulto nu em uma performance artística. E fica indignado
quando intelectuais do Youtube e artistas lacradores tentam enfiar
goela abaixo, por exemplo, a ideologia de gênero, como se fosse um fato
consumado e algo óbvio que só os burros e idiotas não aceitam.
Esse brasileiro comum fica indignados, também, quando professores
ensinam aos seus filhos em sala de aula que eles devem experimentar de
tudo antes de decidir qual será sua orientação sexual – e os pais que
não acharem isso muito bonitinho e natural são nazistas e genocidas.
Pior ainda se forem famosos: a patrulha da cultura do cancelamento está
sempre alerta para esfolar e massacrar quem não adere incondicionalmente
à sua agenda. Porque quem discorda do pensamento único é gado e
imbecil.
Em vez de tentar construir pontes com esse brasileiro comuns e
reconhecer que sua estratégia está fracassando, o campo progressista
dobra a aposta e se entrincheira no cercadinho ideológico da mídia e da
academia. A esquerda opta, assim, por viver em uma realidade
alternativa, na qual ela tem o poder de decidir por decreto que a
exposição de uma criança ao contato com um adulto nu é arte, ou que não
existem diferenças entre trans e mulheres. Eles falam e escrevem com a
autoridade de seres iluminados que determinam o que é óbvio, o que é
certo ou errado, o que é bom ou mau para o restante da população.
Má notícia para eles: o Brasil real é muito diferente do Brasil das
bolhas da academia, da classe artística e das redes sociais: nos
costumes, o Brasil real é majoritariamente conservador. Nesse contexto,
para ter chances mínimas de sucesso, qualquer luta ligada a mudanças na
moral e no comportamento deveria focar na construção de pontes, não de
muros. Não será no grito e no deboche, nem constrangendo e
desqualificando a maioria da população que isso irá mudar. Ao contrário:
táticas de confrontação e violência verbal só servirão para acirrar
ainda mais as diferenças, em vez de contribuir para o consenso.
Não sei qual foi o real peso da pauta progressista e lacradora nos
costumes na eleição de 2018, mas seguramente algum peso teve. Mas nem a
mídia, nem a inteligentzia (ou a burritzia), nem a turma da lacração nem
a esquerda em geral reconheceram (ou sequer entenderam) isso. No
passado recente, escrevi mais de uma vez que, enquanto a esquerda
brasileira teimar em se associar ao lulopetismo, a direita só fará
crescer – e os resultados das eleições de 2016 e 2018 foram confirmações
eloquentes dessa tese. Hoje a minha intuição é que, quanto mais a
esquerda tentar impor na base do grito pautas transgressoras que
contariam os valores da maioria da população, mais ela se distanciará do
Brasil real, e pior será o seu desempenho nas urnas – e as pesquisas
sugerem que a esquerda vai fracassar rotundamente nas eleições
municipais que se aproximam. Continuem agindo assim e, mais uma vez, a
direita e os conservadores só terão a agradecer.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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