Por Aninha Franco CORREIO
Estou no fim
da manhã de sexta-feira, 6 de abril, manhã de tensões. Depois de um
percurso jurídico acidentado, o líder político mais famoso do Brasil, o
pop star Lula da Silva, teve sua prisão decretada para a tarde de hoje.
Os movimentos sociais ameaçam, o Partido dos Trabalhadores promete que
Lula não se entregará. É um dia propício às reflexões de amanhã, sábado,
sobre os sonhos coletivos, esses que se parecem tanto entre si e
raramente se tornam realidade.
Vários trechos do Evangelho de Mateus se encontram
nos discursos dos guerrilheiros dos Anos 1970, nos textos de Marx e
Engels do Século 19, na poesia de John Lennon, nas promessas
lulopetistas do final dos 1980, início dos 1990. Todos eles esbravejaram
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um
rico entrar no reino do Senhor. Na terra, o Vaticano detentor dos
direitos autorais dos evangelhos está podre de rico e sempre dá menos do
que guarda. Os textos de Marx e Engels fracassaram na Rússia, em Cuba,
na China (?). O lulopetismo enriqueceu líderes da guerrilha dos anos
1970, José Dirceu como exemplo, e centenas dos profetas sindicalistas
que assim que chegaram ao poder passaram a comprar agulhas, camelos
e humanos esquecidos que a questão era ser e não ter.
e humanos esquecidos que a questão era ser e não ter.
E
o desejo de ter, essa febre, se multiplica sem parar, produzindo ricos
em todos os estamentos humanos depois de demolido o juízo estúpido de
que existiam humanos melhores que outros, escolhidos por Deus, ou
nascidos com sangue azul. A lenda do sangue azul persistiu até a
Revolução Francesa quando Luiz XVI e Maria Antonieta, os reis, foram
guilhotinados na Praça da Concórdia e milhares de franceses viram, ao
vivo e em cores, que seus sangues reais eram vermelhos como o sangue dos
servos.
De lá pra cá, a humanidade vem investindo
pesadamente no entendimento de que ter azula o sangue e, no Brasil, onde
ser nunca mereceu muito respeito, ter ou não ter é quase uma questão
existencial, de se eu tenho eu sou. A questão é que, para ter, por
aqui, desde o início, sempre houve o saque à coisa pública, sem que os
saqueadores fossem importunados pelas construções de fortunas
inconcebíveis de construir-se com funções públicas.
Em 2014, a Lava Jato iniciou um combate à construção
dessas fortunas como primeiro projeto ofensivo à corrupção no Brasil,
que está corrompido em toda sua pirâmide, e onde ser honesto é exceção e
deixar-se corromper é regra geral. A prisão de Marcelo Odebrecht, em
2015, mostrou que a República de Curitiba não brincava. Sua continuidade
por três anos esclareceu que ela não era frágil. E a prisão de Lula
ilustra isso, agora.
Porque Lula foi um sonho, um dia, de milhares de
brasileiros, como eu, de fazer do Brasil um país de políticos sem
propriedades construídas com o erário, um país governado sem ganância,
combatendo a miséria com educação. Foi um sonho fracassado apesar de
nós, os sonhadores, termos transformado suas promessas em possibilidade,
levando-o ao poder. Lula traiu o sonho. Este sonho acabou.
Agora é hora do Brasil se reinventar e acreditar no
sonho, outra vez, todos juntos, porque “sonho que se sonha só é só um
sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade.”
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