quinta-feira, 12 de abril de 2018

Plágio: a corrupção invisível no meio acadêmico.


São raras, no Brasil, as instituições que se preocupam com o plágio em trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, escreve Mariana Rutigliano, publicado pela Gazeta do Povo:


Quando pensamos no que define “corrupção” no Brasil, saltam à mente imagens de políticos importantes e de empresários de firmas gigantes que, por exemplo, dominam a execução de obras públicas no país. Dificilmente, no entanto, lembramos que a corrupção, nas suas variadas formas, pode estar presente, inclusive, no meio acadêmico e no ambiente escolar – e que os corruptos em questão podem nem saber que estão errando.

Copiar parte do trabalho de alguém ou reescrevê-lo, traduzindo o conteúdo ou usando novas palavras, é uma das formas mais comuns de se corromper no meio acadêmico. Pode acontecer na elaboração de trabalhos de conclusão de curso, nas dissertações e nas teses. Os indivíduos, no lugar de desenvolver um pensamento original, apropriam-se de ideias alheias em benefício próprio: ser aprovado em um curso, por exemplo.

Para se ter uma ideia, um estudo recente de Sonia Vasconcellos, da UFRJ, e colegas, feito exclusivamente em bases de artigos científicos entre 2009 e 2014, identificou 25 trabalhos de brasileiros que foram retratados, ou seja, que tiveram sua publicação cancelada por causa de erros graves. São trabalhos feitos prioritariamente por pós-graduandos e por docentes de instituições de ensino e pesquisa.

O plágio foi a principal razão para as retratações dos artigos brasileiros: 46% dos casos. Isso significa que metade dos trabalhos que chegam a ser identificados com alguma forma de má conduta no Brasil copiaram trechos de outros textos publicados anteriormente. É como se um autor roubasse as ideias e as palavras de outro, assumindo ao conteúdo autoria própria.

Trabalhos copiados e publicados na forma de artigos e teses já renderam punições a alguns cientistas do Brasil. Em 2014, a Fapesp, que fomenta a ciência no estado de São Paulo, chegou a banir cientistas que tinham apoio da fundação e que publicaram conteúdo plagiado. Um dos pesquisadores punidos copiou cerca de 30 páginas de um livro na sua dissertação de mestrado, que tinha sido financiada com apoio da Fapesp.

O problema é que muitos estudantes, pesquisadores e até docentes de escolas e de universidades podem desconhecer qual é o limite de uma citação, ou seja, de mencionar conteúdo alheio atribuindo-lhe a fonte original, e em que ponto tem início a cópia de um conteúdo. Quando questionados sobre cópias de conteúdos, muitos autores dizem desconhecer que eles próprios erraram.

Isso acontece porque escolas e até universidades não trabalham a fundo a escrita original, o uso de citações e nem os limites do plágio. Diferentemente de países como Reino Unido, em que as universidades contam com tecnologia para identificação de plágio desde as primeiras versões dos trabalhos, no Brasil ainda são raras as instituições que se preocupam com o tema, que debatem o assunto no ambiente acadêmico e, principalmente, que desenvolvem mecanismos para combater essa forma de corrupção.

Indo além, o Brasil não tem noção exata, e nem aproximada, do tamanho da corrupção no meio acadêmico, seja ela proposital ou não. Trata-se de uma corrupção invisível. Hoje, casos de plágio são identificados mediante denúncias raras porque as próprias universidades e instituições de fomento à ciência no país não têm mecanismos claros para receber denúncias, julgá-las e puni-las. Os casos são analisados individualmente. Não há um protocolo. Como exemplo, o CNPq, principal agência de fomento federal à ciência do país, só recebeu, em cinco anos (de 2012 a 2017), 52 casos de denúncias de má conduta, incluindo plágio. O julgamento desses casos ainda não foi divulgado.

Sem saber o tamanho do problema, é difícil estabelecer políticas para lidar com a questão, como a elaboração de cursos e de workshops que tratem de escrita original e o uso de softwares que identifiquem similaridades de conteúdo apresentado por alunos. Enquanto for invisível, a corrupção no meio acadêmico segue operando sem questionamentos.
Mariana Rutigliano é gerente de Marketing Internacional da plataforma de educação Turnitin.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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