quarta-feira, 5 de julho de 2017

Nem toda roubalheira é do Cabral


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Cabral, Eduardo Paes e Júlio Lopes estavam juntos
Elio Gaspari
Folha/O Globo
O Rio estava precisando de notícia tão boa. O juiz Marcelo Bretas botou na cadeia Jacob Barata Filho, o “Rei dos Ônibus”, e o doutor Lelis Marcos Teixeira, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio. Falta trancar o empresário José Carlos Lavoura, presidente do conselho da Fetranspor, que está em Portugal, mas prometeu se entregar.
Junto com a boa notícia veio a informação de que Sérgio Cabral embolsou pelo menos R$ 122 milhões. O Magnífico Cabral mamava na Fetranspor desde quando era um pobre deputado estadual e continuou sugando até pouco antes da chegada da Policia Federal ao seu apartamento.
TUDO MENTIRA – Até 2012 existia um Sérgio Cabral “gestor”, modernizante, moralizante, divertido até quando andava de bicicleta em Paris num dos seus ternos de Ermenegildo Zegna. Era tudo mentira. Agora, Cabral é um simples detento na tranca de Benfica e encarna todas as corrupções do governo do Rio de Janeiro, caixa de todas as propinas. Pra cima de quem?
As acusações que levaram Barata e Lelis para a cadeia repetem um modelo antigo, centenário: aumentos de tarifas, concessões renovadas na lábia, incentivos fiscais e perdões tributários. Como diria o próprio Cabral, ele exagerou, mas não foi o primeiro governador a morder a turma dos ônibus, nem no Rio eles são mordidos apenas pelo governador. A cidade tem uma operosa prefeitura.
BILHETE ÚNICO – A prefeita paulistana Marta Suplicy instituiu o bilhete único em 2004. Apesar de essa modalidade de tarifa ter sido prometida por Sérgio Cabral e por Eduardo Paes nas suas campanhas eleitorais, o bilhete só chegou ao Rio em 2009. O sistema de transportes do Rio entrou para a história em 2007 quando a Fetranspor lançou o seu Riocard Expresso, custando R$ 40, dando direito a R$ 40 em tarifas. Era o único do mundo que recebia o dinheiro da freguesia adiantado, sem dar qualquer desconto.
A Fetranspor parece-se com uma dessas entidades que servem de biombo para cartéis, mas é mais que isso. Seu presidente, o doutor Lelis, é o arquimandrita de uma seita. Ele, bem como seus aliados, disseminou a ideia de que o Rio estava no futuro porque evitava políticas de subsídios para o transporte público. Nova York, Londres e Paris subsidiam. O Rio está no passado, a caminho do século 19, tempo do pavor da rebelião dos escravos.
PASSAGEM DE IDA – O conto de fadas da Fetranspor encantava economistas e adoradores do mercado que astuciosamente fingiam esquecer a estrutura do negócio dos ônibus do Rio. Ontem esses sábios não sabiam o que havia em torno do Magnífico Cabral; hoje, preferem pensar que era tudo coisa do Cabral e de sua turma de mordedores. (Como os petistas dizem que o apartamento não é de Lula, o jogo fica empatado.)
As primeiras notícias da Operação Ponto Final têm um aspecto inquietante. Jacob Barata foi preso no aeroporto, a caminho de Lisboa, só com passagem de ida. Logo, não voltaria. A suspeita não fazia sentido: um bilhete Rio-Lisboa-Rio, custa praticamente a mesma coisa que o da perna Rio-Lisboa. (Horas depois a assessoria de Barata exibiu a passagem de volta.)
Pode-se não gostar do Rei dos Ônibus, mas satanizações vulgares repetem o erro do doutor Lelis com seus sermões.
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