terça-feira, 6 de junho de 2017

A sobrevida do governo Temer é campo fértil para a aventura populista


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Fotomontagem do blog Não Entre Aki
Altamir Tojal
Comentei outro dia numa conversa que democracia e certeza são coisas que não combinam. E lembrei na mesma hora de Hannah Arendt tratando do caráter imprevisível da política e de sua dimensão para além dos negócios de governo. Antipetista, meu interlocutor admitia que Temer vai mesmo cair. Mas preferia que ele ficasse até a definição de um democrata para substituí-lo, alguém que trouxesse a certeza de que o país não será entregue a um populista de esquerda ou direita. Entre os seus temores, o de o brasileiro a ter de optar entre Lula e Bolsonaro na próxima eleição.
Penso exatamente o contrário. É claro que esse dilema pode se impor em diferentes cenários, seja com eleições antecipadas ou não. Mas creio que ele será mais provável na medida em que o governo Temer demorar a cair.
AVANÇO DO POPULISMO – Cada dia a mais com Temer no poder mais conturbadas deverão ser as eleições de 2018 e maior será o avanço eleitoral dos populismos de esquerda e direita, aniquilando as chances de alternativas democráticas.
Quanto mais tempo durar a blindagem de Aécio Neves, flagrado pedindo propina à JBS e armando contra a Lava Jato, maior é a ameaça de jogar por terra o trabalho da força-tarefa para processar Lula como chefe da organização criminosa petista.
O sucesso — felizmente, cada vez mais improvável — da articulação para salvar Temer e Aécio também é ruim, a meu ver, para a retomada do crescimento sustentável da economia, para as reformas e para a continuidade do combate à corrupção e à impunidade. O cenário de um governo desmoralizado, de mais recessão e mais impunidade vai gerar mais perdedores, mais ressentidos e mais revoltados contra a política. Campo mais fértil, portanto, para a aventura populista.
TÁTICAS DE SOCORRO – Registre-se que as táticas de socorro a Temer e Aécio são as mesmas usadas pelo PT para socorrer Lula, Dilma e seus “heróis do povo”: acusações de golpismo e de abusos de juízes, do ministério público e da mídia, sem falar nos argumentos sórdidos de que a corrupção sempre existiu por aqui e de que o brasileiro só não é corrupto quando não consegue ser.
Desde o impedimento de Dilma, considero errada a aposta no governo Temer. Ele teria de ser presidente, é claro, por imposição constitucional. Mas era evidente que o vice de Dilma e a quadrilha do PMDB não resistiriam dois anos e meio e, portanto, não poderiam ser a ponte para 2018.
CAMINHOS DEMOCRÁTICOS – Naquela ocasião existiam caminhos democráticos e constitucionais para encurtar o mandato de Temer, que foram ignorados intencionalmente pelo comando das forças políticas que assumiram o poder. Um deles seria o TSE cumprir o dever de julgar a cassação da chapa Dilma-Temer e o Congresso aprovar a emenda do deputado Miro Teixeira de eleições diretas para um novo presidente legitimado pelo voto popular para levar o país até 2018.
Houve, portanto, condições para um pacto político legítimo. Mas optaram pelo pacto contra a Lava Jato.
Pode ter sido avaliação equivocada de alguns e foi seguramente irresponsabilidade e oportunismo de outros tantos embarcar na canoa furada com os bandidos que ajudaram a eleger e deram sustentação aos governos do PT. Por isso me desfiliei do PSDB, que se tornou no governo Temer o que o PMDB foi nos governos do PT.
PSDB DESMORANDO – O destino trágico do PSDB, que fez oposição nos 13 anos de governo petista e agora se vê desmoronar como alternativa democrática de poder também evoca Hannah Arendt com suas reflexões sobre a irreversibilidade da ação política.
Lula e o PT traíram a confiança da militância, dos eleitores e desmoralizaram a política para milhões de brasileiros. Aécio e o PSDB seguiram caminhos que levam ao mesmo lugar. Desembarcar agora do barco afundado de Temer é o que tem de ser feito, mas não vai consertar os erros cometidos.
Mesmo nos piores momentos procuro ser moderadamente otimista. Acho que o Brasil vai se livrar de muitos falsos líderes e de algumas quadrilhas da política com a continuação da Lava Jato. Tem muita gente fazendo a coisa certa na Polícia Federal, no MP, na justiça e na imprensa.
PROCESSO VIRTUOSO – Muitos crimes foram descobertos, alguns bandidos estão presos e alguns bilhões estão sendo resgatados. A sociedade está machucada mas também está mais atenta. Não vai ser fácil parar este processo virtuoso.
Por mais espertas que sejam as narrativas do PT e por mais bem articuladas que sejam as manobras do PMDB e do PSDB, as máscaras vão caindo a cada dia. Qual a diferença de Gilmar Mendes para Lewandowski e de Alexandre de Moraes para Toffoli? Os sofismas dos advogados e assessores de Temer e Aécio são idênticos aos do Cardozão e do Instituto Lula.
A VELHA PERGUNTA – Então, o que fazer? A velha pergunta de Lenin é uma espécie de eterno retorno na política. Em primeiro lugar, entendo que é preciso respeitar a Constituição e defender as instituições democráticas. Depois, não acreditar em salvador da pátria e se convencer que melhores escolhas políticas surgem do diálogo honesto e do respeito à diferença. Isso vale para construir um pacto político legítimo, como fizeram outras sociedades em momentos de crise, e é condição necessária para a multidão a ir para a rua novamente se as instituições não fizerem o que lhes cabe.
Recorro outra vez a Hannah Arendt, “pensadora da crise e de um novo início”, nas palavras do professor Eduardo Jardim. Acho que, para os amigos da democracia, é hora de dobrar a aposta na política como campo de convivência entre diferentes e também como oportunidade de recomeço.
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