sexta-feira, 19 de maio de 2017

Era só o que faltava: Temer embolsou R$ 1 milhão da propina entregue ao PMDB


Charge do Ziraldo (Arquivo Google)
Renata Mariz e André De Souza
O Globo
Responsável pela entrega de propinas a mando da JBS, Florisvaldo Caetano de Oliveira disse em delação que levou em uma caixa R$ 1 milhão destinados ao então vice-presidente Michel Temer, hoje à frente do Palácio do Planalto. Oliveira afirmou que recebeu a ordem de Ricardo Saud, diretor da JBS, em 2014. Saud, que também é delator, afirmou que o dinheiro foi “roubado” por Temer. Isso porque ele guardou o dinheiro, em vez de gastá-lo na campanha daquele ano, conforme combinado previamente com o PT.
Quem recebeu o recurso, segundo Oliveira, foi um homem identificado como “coronel”. Ele se refere a João Baptista Lima Filho, amigo de Temer, que é coronel aposentado da Polícia Militar (PM) paulista. O endereço da entrega do dinheiro, a Argeplan, Arquitetura e Engenharia, na Vila Madalena, foi alvo de busca e apreensão ontem pela Polícia Federal (PF).
COLOQUE NO CARRO – Oliveira contou que esperava ser convidado para entrar, mas que o coronel pediu que ele apenas colocasse a caixa no carro estacionado ao lado. O delator perguntou sobre uma câmera de segurança instalada no sobrado onde funciona a empresa, mas o destinatário do dinheiro o tranquilizou.
O coronel respondeu da mesma forma, descartando qualquer risco, quando Oliveira demonstrou preocupação com a eventual presença de pessoas no escritório que pudessem assistir à movimentação do lado de fora, por meio de um vidro grande que existe na fachada do sobrado.
O delator contou aos procuradores que estava num Corolla, de propriedade de Demilton Castro, funcionário da JBS que também virou delator, mas não se lembra de detalhes do veículo em que ele colocou o dinheiro por orientação do coronel. Segundo Oliveira, os recursos estavam no interior de uma caixa grande, que ele mesmo acomodou no carro indicado.
ESTEVE LÁ ANTES – Não foi a primeira vez, porém, que Oliveira esteve no imóvel. Antes da entrega, o delator chegou a ser recebido pelo coronel, segundo contou, para saber exatamente como deveria fazer o repasse. Ele disse que, apesar de fazer outras remessas a mando da JBS, temia andar com tanto dinheiro. O coronel não gostou de receber o homem sem o dinheiro:
— Ele achou ruim porque: ‘poxa, prometeu, não sei o quê’… Vim aqui para entender como é, afinal de contas, não é 1 real, é R$ 1 milhão — disse.
Oliveira afirmou que soube que o destinatário era Temer por Ricardo Saud. O diretor estava irritado porque ele havia se atrasado para a entrega. Ao telefone, disse que o pagamento tinha como destinatário o então vice Temer: — O Ricardo me cobrou. “Ó, sabe que tem que atender, isso é do Temer “.
ATRAVÉS DE DOLEIROS – O delator explicou, então, que ainda não havia recebido o recurso que chegava por meio de doleiros. Nesse mesmo dia, dirigiu-se ao endereço para acertar o pagamento, quando foi recebido pelo coronel. Mas contou que só dias depois fez, de fato, o repasse. Em depoimento prestado em 5 de maio deste ano, Saud confirmou versão de Oliveira.
— Ele até tratou muito mal o Florisvaldo. “Pô, esse cara tá demorando pra trazer o dinheiro aqui. O homem já falou comigo. O dinheiro não chega, tal, tal.” Até o Florisvaldo não sabia o que tava acontecendo, voltou e falou: o que que tá acontecendo? Eu peguei e falei: não, Florisvaldo, esse dinheiro é do Michel, pode deixar que eu vou resolver isso, tá demorando de mais, agora mesmo vou te tirar desse negócio. Aí, falou assim pro cara, pra esse coronel: eu vou voltar tal dia. Ele falou: não, não, tal dia não, agora não, você vai vir cá depois de dois, três dias, que eu não vou tá aqui, e só eu ponho a mão nesse dinheiro. E aí foi feito. Florisvaldo foi lá. Voltou lá já com dinheiro. Ele e o Demilton no carro dele nesse mesmo endereço, falou com essa mesma pessoa — relatou Saud.
TEMER DEU O RUMO – Ainda segundo ele, foi o próprio Temer, na calçada em frente a seu escritório político em São Paulo, quem passou endereço e até deu explicações de onde ficava a casa.
— Ensinou mais ou menos onde era. Eu peguei e mandei Florisvaldo lá. Falei: Florisvaldo, vai lá saber o que é isso. Aí Florisvaldo foi lá. Porque até então eu achava que o dinheiro ia para o Yunes. Não entendi nada, nunca ouvi falar nesse endereço — disse Saud, fazendo referência a José Yunes, ex-assessor de Temer que já foi citado na delação da Odebrecht.
No depoimento, Saud levou duas folhas com uma fotografia da casa impressa para mostrar onde fica a casa e mostrou um detalhe que o preocupou: havia uma câmera instalada na residência. Também levou uma foto do coronel. — Eu falei: essa cara te gravou, Florisvaldo, vamos lá na porta ver isso. Eu fui pessoalmente lá ver isso. Porque eu me preocupei muito. Até então eu não sabia quem que era — contou Saud.
DESVIOU R$ 1 MILHÃO – Segundo Saud, foram entregues R$ 15 milhões a Temer durante a campanha de 2014 para serem redistribuídos a peemedebistas de todo o país. Mas ele “roubou” R$ 1 milhão para outras despesas sem relação com a eleição.
O dinheiro saiu da “conta corrente” mantida pelo PT na JBS, que chegava a R$ 300 milhões e era alimentada por recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e dos fundos de pensão.
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