Dos 53 deputados federais mineiros eleitos no último
pleito, apenas dois apresentaram contas de campanha sem falha. Somadas,
as irregularidades nos gastos encontradas pelo Tribunal Regional
Eleitoral (TRE) chegam a R$ 3,2 milhões do total de R$ 113 milhões
declarados pelos candidatos (veja infografia).
Considerando a avaliação mais rigorosa do TRE e do
Ministério Público Eleitoral (MPE), quase metade dos deputados federais
mineiros não teria assumido. Ao todo, 24 congressistas que conquistaram
um lugar na Câmara dos Deputados tiveram as contas desaprovadas, 16 das
quais reprovadas em ambas as análises.
As “não conformidades” são relativas a falhas
consideradas leves ( como erros de lançamentos de valores), até graves
(como indícios de caixa 2), e foram identificadas no parecer conclusivo
dos técnicos do tribunal. Portanto, após o período de ampla defesa.
Incorreção
No caso do deputado Caio Nárcio (PSDB), por exemplo, o
TRE identificou cinco notas fiscais, totalizando R$ 97 mil, preenchidas
incorretamente.
“Sugere-se que se dê ciência à Procuradoria Regional
Eleitoral para, se entender cabível, apurar possíveis ocorrências de
crime fiscal/eleitoral”, afirma trecho do documento.
O procurador regional eleitoral, Patrick Salgado, pediu o
encaminhamento do caso ao Núcleo Criminal do órgão. Mas o juiz
eleitoral Virgílio Barreto interrompeu o processo ao aceitar a tese do
congressista de que a irregularidade envolvia erro de lançamento.
Basicamente, os candidatos são obrigados a apresentar
duas parciais das contas durante as eleições e uma prestação final ao
término da disputa. Os examinadores, então, analisam gastos e receitas,
questionam as falhas e, após um prazo, recebem as respostas antes de
produzir o parecer conclusivo. Baseado nesse documento, o procurador
eleitoral também emite um parecer e o TRE-MG julga as contas.
Mesmo com as várias chances para retificar as contas,
alguns candidatos ainda entram com recursos judiciais depois dos
pareceres finais para apresentar novas explicações antes do julgamento.
Somada a essa manobra há a complacência dos juízes, escorados na teoria
da razoabilidade.
Juíza aprova
Para ilustrar, o caso do deputado federal Leonardo
Monteiro (PT), que acumulou uma dívida durante a campanha de R$ 636 mil.
Além disso, usou R$ 24 mil de origem não identificada e omitiu despesas
de R$ 13 mil e receita de R$ 3 mil. A conclusão do parecer técnico
conclusivo, seguida pelo MPE, foi desaprovar as contas que englobavam R$
676 mil, da verba total de R$ 1,8 milhão, irregulares.
A juíza Maria Edna Veloso, porém, aprovou as contas do
deputado após o PT assumir R$ 500 mil da dívida. “O candidato não
demonstrou como serão pagos os R$ 51 mil em dívidas com contratação do
pessoal que trabalhou na campanha, irregularidade que representa 2,8% do
total de R$ 1,8 milhão do custo de campanha, valor insignificante no
contexto geral da prestação de contas, e que não enseja a rejeição”.
(* Colaborou Giulia Mendes)
Ex-presidentes do PSDB e do PT foram reprovados
Dois dos principais nomes do cenário político mineiro,
ex-presidentes dos principais partidos no Brasil e em Minas, tiveram as
contas reprovadas pelo corpo técnico do TRE-MG e pela Procuradoria
Eleitoral. Marcus Pestana (PSDB) e Odair Cunha (PT), atual secretário de
Governo de Fernando Pimentel, registraram falhas graves nas respectivas
prestações, conforme parecer conclusivo.
O caso do tucano foi o mais grave. Além do crivo
negativo dos examinadores e do MPE, recebeu a desaprovação do Pleno do
TRE-MG. O ex-presidente do PSDB mineiro só garantiu sua cadeira no
Congresso após ter recurso aceito pelo TSE. Os examinadores encontraram
R$ 271 mil irregulares na campanha dele, que custou R$ 2,4 milhões.
Documentos fiscais e despesas omitidas, além de falhas nas parciais,
foram encontrados, mas o que gerou a desaprovação das contas no TRE-MG
foi o recebimento de R$ 12 mil de fonte vedada – “Solar Comunicações”,
concessionária de serviços públicos.
Já Odair Cunha, ainda conforme o parecer conclusivo,
teve R$ 26 mil de despesas omitidas, com parte desses recursos sem
trânsito pela conta bancária oficial de campanha, o que pode significar,
por exemplo, uso de caixa 2.
No entanto, o juiz Wladimir Rodrigues Dias aceitou
documentos após os pareceres que justificaram o uso de R$ 24 mil – o
restante foi relevado pelo princípio da razoabilidade. Além de Pestana, o
deputado federal mineiro que teve as contas rejeitadas pelo Pleno do
TRE-MG foi Padre João (PT). O petista ainda corre o risco de perder a
cadeira. O recurso dele ainda tramita no TSE.
Todos os deputados citados na reportagem foram procurados pelo Hoje em Dia,
mas apenas Patrus Ananias retornou às demandas. Conforme a assessoria
de imprensa dele, “as contas foram aprovadas pelo TRE e o Ministério
Público não recorreu”.
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