Em carta, comunidade anuncia "morte coletiva" caso despejo aconteça.
Dono das terras invadidas não acredita em confronto ou suicídio.
Conforme o coordenador do CIMI em Mato Grosso do Sul, Flávio Machado, o conselho ficou muito preocupado com o conteúdo da carta. “Nós entendemos que essa morte coletiva anunciada seria em um combate. Eles estão dispostos a resistir a qualquer tentativa de despejo. Todo grupo tem consciência de que ali é um território deles, onde seus antepassados foram enterrados, por isso lhes dá coragem para isso tudo”, disse ao G1.
Machado fala que a decisão foi autônoma e tomada de forma consciente pelos membros da comunidade. “Eles dizem que essa hipótese de saírem das terras não existe, é desconsiderada. E a questão das mortes também não deixa de ser uma possibilidade de suicídio coletivo, diante de um quadro histórico de que um guarani-kaiowá se suicida a cada 6,5 dias”, afirmou.
Litígio
Bonamigo tem uma fazenda de 700 hectares que fica dentro da área de 30 mil hectares exigida pelos indígenas. "Temos documentos e filmagens que já foram divulgados pela imprensa do dia da invasão. Havia dois ônibus cheios de índios”, disse ao G1.
Para Bonamigo, a carta teria sido feita para motivar as pessoas. “Não acho que existe essa possibilidade de combate ou suicídio. A questão seria de sensacionalismo para chamar atenção”, afirmou.
Ainda conforme o proprietário, a decisão do juiz determinou que a responsabilidade da Funai seja cumprida. “Nunca acreditei que se corrige uma injustiça começando outra injustiça. A questão da tutela dos índios é da Funai, que não vem fazendo o papel que deveria. Caso eu tenha que entregar mesmo a terra, que eu seja pelo menos indenizado”, exclamou.
Segundo o advogado de Bonamigo, Armando Albuquerque, o mandado de justiça já foi expedido, mas ainda não foi entregue aos índios. “Assim que o oficial de justiça entregar, eles terão um prazo de 30 dias para desocupar. Caso isso não aconteça, uma multa de R$ 500 por dia deve ser paga. Não haverá uso de força policial, a não ser que isso seja pedido mais para frente pelo oficial”, disse.
O G1 tentou contato com o setor da Funai que poderia comentar sobre o conteúdo da carta e o desfecho da decisão. No entanto, a informação repassada é que as duas pessoas responsáveis para falar sobre o assunto estão de licença médica e poderiam falar apenas nesta quinta-feira (18).
Veja a carta enviada ao CIMI na íntegra:
"Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil
Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay"
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