Tecidos importados dos EUA eram usados em confecções de Pernambuco.
Comércio se recuperou, mas possíveis culpados ainda não foram indiciados.
Contêineres com lixo hospitalar foram apreendidos emSuape, em outubro de 2011. (Foto: Katherine Coutinho/G1)
Por meio de nota, a Procuradoria da República informou que pediu a instauração do inquérito policial ainda em outubro do ano passado. “O objetivo, além da apuração de responsabilidades no âmbito civil, é verificar se houve falhas no serviço público de fiscalização e promover a adoção de medidas para evitar que os fatos se repitam”, dizia o texto.
Como o caso corre em segredo de Justiça, a Polícia Federal não comenta sobre o avanço das investigações nem dá previsão para a conclusão do inquérito. A Receita Federal também participou das investigações e representou a importadora criminalmente, junto ao MPF. “A empresa importadora foi representada por contrabando, por tentar importar algo que é proibido”, explica o inspetor chefe da Alfândega em Suape, Carlos Eduardo Oliveira.
A empresa Na Intimidade Ltda., situada em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste pernambucano, era a importadora da carga. À época, os responsáveis se defenderam afirmando terem sido enganados pela exportadora americana Texport Inc., pois aguardavam a chegada de tecidos com defeito e não de lixo hospitalar. Os tecidos eram vendidos em cidades do Agreste, principalmente para fabricantes do polo de confecções, para produção de forros de bolsos de calças jeans. Além dos contêineres, a Agência de Vigilância Sanitária de Pernambuco (Apevisa) encontrou tecidos semelhantes em galpões em Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru. O material foi incinerado.
Os documentos apresentados naquela ocasião afirmavam que os contêineres traziam tecido com defeito, enquanto durante a inspeção foi constatado que resíduos hospitalares estavam armazenados ali. “Era uma coisa que não se esperava de forma alguma. Passamos a ficar atentos a várias outras coisas, outros fatores. Depois desse caso, houve um aprimoramento da vigilância”, conta Oliveira.
Os comerciantes do polo têxtil, no Agreste do estado, destino final da carga, também ficaram bem mais atentos. Na época, as vendas chegaram a cair 50% na primeira feira de rua de Santa Cruz do Capibaribe logo após a descoberta dos contêineres. A Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária fez apreensões em Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruru, material que já foi incinerado.
Edson Araújo, comerciante há 26 anos do ramo de tecidosem Santa Cruz do Capibaribe.(Foto: Katherine Coutinho/G1)
A vendedora Erika Carolina Lopes conta que, dois meses depois do ocorrido, as vendas já tinham voltado ao normal. “As pessoas ficaram receosas, é normal, né? Todo mundo olhava muito o forro de bolso branco, todo mundo desconfiado. O problema foi mais com produto importado, mas é questão da pessoa olhar e desconfiar”, pondera Erika.
Maria Francisca toma ainda mais cuidado com a fabricaçãode jeans. (Foto: Katherine Coutinho / G1)
O comerciante João Cardeal da Fonseca, que tem uma loja no centro de moda de Santa Cruz, acredita que o escândalo do lixo hospitalar foi um mal que veio para o bem. “Fiquei preocupado na época, mas agora está até melhor do que era. O pessoal que fabrica as calças jeans ficou muito mais cuidadoso, o produto melhorou de qualidade. Não dá para explicar, mas no fim das contas, até que foi algo bom”, acredita Fonseca.
Vendas
voltaram ao normal no Moda Center em Santa Cruz do Capibaribe. Produtos
melhoraram de qualidade, afirmam comerciantes. (Foto: Katherine
Coutinho / G1)
Fabricantes investem em forros personalizados para ganharconfiança dos clientes. (Foto: Katherine Coutinho / G1)
Costa concorda com o colega de Santa Cruz sobre a qualidade do produto. “Os fabricantes, principalmente de Toritama, que é de onde compro mais, estão com um controle de qualidade muito grande. As pessoas ficaram com medo, viram que não adianta vender um produto muito mais barato sem saber de onde vem, os clientes são exigentes”, afirma o comerciante, que conta ainda que alguns fabricantes passaram inclusive a personalizar os bolsos. “É um processo um pouco mais caro, mas não alterou o preço para o consumidor”, explica.
Retalhos vendidos em Santa Cruz do Capibaribe.(Foto: Katherine Coutinho / G1)
Evitar que essa situação se repita é um dos desafios encontrados no polo. O diretor de empreendedorismo e planejamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Santa Cruz do Capibaribe, Bruno Bezerra, acredita que o próprio consumidor ajuda a esse tipo de produto não ser mais vendido. “O mercado em si cria suas auto-regulamentações. Se ele não quer aquele produto, o fabricante não usa mais, o fornecedor não compra mais. Aquela situação tumultuou muito o mercado, estávamos nos preparando para o final do ano, aquecendo para as vendas e atrapalhou tudo. Não é à toa que comerciantes e fabricantes riscaram aquele tipo de produto do portfólio”, diz Bezerra.
Além da autorregulamentação, uma legislação estadual foi criada especificamente para a reutilização de tecidos, fruto do debate do comitê de fortalecimento do polo têxtil de Pernambuco, formado por representantes do Governo, prefeituras que integram o polo e empresários da região. A Lei Estadual nº 14.634, de 23 de abril de 2012, institui, entre outros pontos, que fica proibida ‘a utilização fora da unidade geradora, a reciclagem, a compra, a venda e a doação de roupas de uso hospitalar classificadas como resíduos de serviços de saúde, mesmo que submetidas a tratamento na unidade de processamento de roupas’.
A regulamentação, já em vigor, prevê ainda multa de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão, que pode ser duplicada em caso de reincidência da irregularidade. “Não tivemos notícias de novos casos, mas continuamos a vigiar. Naquele caso [dos galpões interditados no Agreste], nossa punição foi incinerar todo o produto, enquanto os contêineres com lixo hospitalar em Suape foram devolvidos aos Estados Unidos”, detalha o gerente geral da Apevisa, Jaime Brito.
Em Toritama, comerciantes afirmam que não tiveram maisproblemas. (Foto: Katherine Coutinho / G1)
Apesar das perspectivas positivas, o presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil, Edilson Tavares, lembra que ainda existem muitos desafios a serem vencidos, que vão além da crise do ano passado. “A economia mundial passa por problemas, a indústria nacional também. Temos vários desafios, como tentar mobilizar o nosso setor para ter produtos com marca de sustentabilidade, capacitação de mão de obra”, enumera o presidente.
Tendo visitado inúmeras empresas, Tavares acredita que o caso do produto hospitalar sendo reutilizado foi isolado. “As pessoas não tinham muita noção do que acontecia, ninguém sabia que era irregular e proibido. As empresas regulares compram seus tecidos direto da fábrica, há até o modismo agora de personalizar o forro de bolso. Acredito que os empresários e a população estão mais vigilantes para que a gente possa expurgar do nosso meio quem tem essas atitudes”, finaliza o presidente.
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