'Xadrez que Liberta' foi eleito o melhor projeto socioesportivo do mundo.
Mais de 3.500 detentos em 32 unidades praticam a atividade no estado.
'Não quero levar o xeque-mate como levei lá fora',diz Rodrigo da Silva. (Foto: Juirana Nobres/G1 )
“Depois que comecei jogar percebi que antes de tomar uma decisão na minha vida tenho que pensar direito, para saber se a minha decisão está correta. O xadrez é isso, ajuda a gente a pensar antes de tomar qualquer atitude ou jogar qualquer pedra errada. Por causa das atitudes precipitadas é que nós viemos parar neste lugar. Nesse jogo eu não quero perder, não quero levar o xeque-mate como levei lá fora”, explicou o Rodrigo.
Mudança de vida
Experiente com trabalhos na construção civil, Cristiano Assis, de 34 anos, quer mudar de vida. Atrás das grades há sete anos, e há três dedicados ao xadrez, o interno pensa em ser professor de matemática ou física. Assis foi condenado por tráfico de drogas e prefere não falar muita em sua vida, que segundo ele, ficou no passado.
“As jogadas do xadrez são parecidas com as ‘jogadas’ e decisões que tomamos na nossa vida. Às vezes nós temos que desviar de vários obstáculos para alcançar alguma coisa. No jogo também é assim, vence quem chegar lá em cima. No tabuleiro, um peão pode se tornar uma peça mais forte, de acordo com as jogadas que fizer e dependendo da pedra que mover. Na vida real também é assim. Podemos ser o que nós quisermos, professor, doutor, executivo, basta correr atrás, ter força de vontade e trabalhar”, relatou.
Exemplo para o mundo
‘Xadrez que Liberta’, concorreu com 140 projetos de diferentes modalidades esportivas de diversos países e ganhou o prêmio Spirit of Sports. A premiação é concedida pela Sportaccord, órgão que reúne federações esportivas internacionais como a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e o Comitê Olímpico Internacional (COI).
No último dia 8, representantes da Confederação Brasileira de Xadrez (CBX), apresentaram o projeto a subsecretária Geral e Diretora Executiva da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres, Michelle Bachelet, na sede da organização, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. O objetivo de Bachelet é levar a iniciativa capixaba para todos os presídios femininos do mundo.
Filhos
O crime também afastou da família o trocador de ônibus e operador de máquinas Elson Xavier. Ele tem 34 anos e cinco filhos. Para se distrair, o detento disputa partidas de xadrez com os companheiros de cela, mas sua maior vontade era estar em casa.
“Fiz coisas erradas e por isso estou aqui. Tenho consciência que tenho a oportunidade de mudar. Todas às vezes, que espero meu companheiro mover a peça, reflito, penso e me perco em meus pensamentos. Se eu estivesse só lá no outro ‘xadrez’, lá na cela, meus pensamentos poderiam não ser tão positivos. Esse jogo tem vários objetivos e preenche a nossa mente”, disse.
O projeto
'Xadrez que Liberta' é uma parceria entre a Secretaria Estadual de Justiça e a Confederação Brasileira de Xadrez, e existe desde 2008. O vice-presidente da confederação, Charles Moura Netto, que participou da implementação no Espírito Santo, disse que objetivo das ações vão muito além dos movimentos no tabuleiro.
"Trabalhamos o xadrez não como fim, mas como meio de reflexão, de atitude, de ética, de moralidade. Isso não quer dizer que torna o indivíduo mais inteligente, na verdade só aguça valores que nós já temos e que são natos. Isso pode se mais intenso para essas pessoas que estão privados da liberdade", explica Neto.
O vice-presidente da confederação disse ainda que o xadrez é um esporte diferente por que trabalha com o intelectual, a possibilidade de resolver problemas, autonomia e tomada de decisões e pode ser realizado em qualquer espaço físico.
Sejus disse que a atividade é aplicada para mais de 3.500 detentos em 32 unidades prisionais do estado. (Foto: Divulgação/Sejus)
Nenhum comentário:
Postar um comentário